Alice No País dos Geeks

“Idealizado por um matemático, professor de lógica; Alice no País das Maravilhas, mais que um livro, se tornou um conceito. Transcendendo a literatura, a obra transita livremente pela cultura pop, pelo cult e também pela filosofia. Um novo filme mais uma vez chega aos cinemas, então falaremos um pouco sobre o universo de Alice”

Introdução

dl-portrait-npg-lewis-carroll

Impossível falar de Alice sem tratarmos da natureza “peculiar” do seu criador: Charles Lutwidge Dodgson, que ao publicar sua obra, adotou o pseudônimo de Lewis Carroll. Charles estudou matemática em Oxford e pelo seu excelente desempenho foi presenteado com uma bolsa vitalícia para lecionar na universidade. O autor recebera uma orientação religiosa desde cedo e seguiu com os estudos na igreja anglicana, chegando a utilizar o título de reverendo Charles; O professor de aspecto sério, fazia jus a sua posição em uma universidade operando em plena era vitoriana, porém possuía um lado excêntrico quanto suas preferências, passando a maior parte do tempo na companhia de pequenas garotas, das quais tomava por amigas. E uma das maneiras de entretê-las era contando suas histórias; Chales escrevia desde cedo, tinha facilidade com poemas e desenvoltura para chamar a atenção de crianças. Mas foi Alice Pleasance Liddell, que encantou Dodgson, por sua natureza curiosa e perspicácia, a pequena garota inspirou o livro que leva seu nome. Através do diário do autor, podemos saber com exatidão detalhes de seu relacionamento com Alice e suas duas irmãs, filhas do vice-chanceler da universidade onde Charles lecionava. O seu diário também traz a situação que inspirou a gênese do livro. Em 1862, em um passeio de barco pelo Tâmisa; O professor contou para as irmãs Liddell, a história de uma garota que entrava em um buraco e encontrava um mundo fantástico no subsolo; Alice se encantou pela história e pediu para que Charles a escrevesse. Em 1865, o manuscrito “Alice’s Adventures Under Ground” estava pronto. Convencido por seus amigos, ele acaba publicando com algumas revisões; uma delas foi título que passou a ser o que conhecemos hoje. Muita polêmica gira em torno da relação de Charles com as pequenas garotas, embora na época não tenhamos a estirpe do “universo da criança” definida, é sempre complicado explanar sobre as práticas adotadas naquele século.

O livrou trouxe, em sua publicação original, as ilustrações de John Tenniel. Um dos maiores ilustradores da época; motivo que ajudou emplacar a venda do livro, Tenniel tinha grande fama por toda Inglaterra e também trabalhou nas ilustrações do segundo livro do autor, “Alice Através do Espelho e o que Ela Encontrou por Lá”. A história do livro é colocada hoje como parte do gênero nonsense, gênero esse que está associado com a fantasia e absurdo. Apesar do “sem sentido” estar por todo livro, temos várias metáforas, sendo muitas delas, tiradas diretamente da sociedade vitoriana da época e seus costumes. Dentre alguns exemplos, temos a representação autoritária da Rainha de Copas em reflexo da própria rainha Vitória e também podemos citar o costume da hora do chá, no livro, protagonizado por seres beirando a insanidade. Além das metáforas sociais, o livro carrega toda filosofia e formatação de um professor de lógica brilhante, dando à obra duas “chaves” de interpretação; tornando-a próprio para crianças e adultos. A complexidade da filosofia envolvida, além do surrealismo e psicodelia, inspirou grandes artistas como John Lennon e Salvador Dali, entre outros. Além das várias versões e adaptações para teatro, musicais, canções. O cinema também adotou o país das maravilhas como palco de diversas obras desde 1903, além das referências conceituais em diversos longas.

12.-Who-Stole-the-Tarts
Salvador Dali: Who Stole The Tarts
08.Mad-Tea-Party
Salvador Dalo: Mad Tea Party
02.Pela-Toca-do-Coelho (1)
Salvador Dali: Pela Toca do Coelho
629px-Alice_par_John_Tenniel_25
Ilustração de John Tenniel: Hora do Chá
Alice_par_John_Tenniel_24
Ilustração de John Tenniel: Gato Sorridente
935px-Alice_par_John_Tenniel_21
listração de John Tenniel: Alice e Duquesa

Filmes e Referências

Não falarei sobre todos os filmes, afinal são inúmeras adaptações. Tratarei alguns dos principais.

Alice in Wonderland (1903)

maxresdefault

Primeira adaptação do livro para as telas, na época foi um marco por seus efeitos especiais inéditos. Parte do filme foi perdida, mas a British Film Institute restaurou algum conteúdo do curta que pode ser encontrado aqui.

Alice in Wonderland (1951)

alice-no-pac3ads-das-maravilhas

Produzida pela Disney, é uma das animações e versões mais conhecidas de Alice. Sendo a 13° produção cinematográfica da produtora, depois de o sucesso de “A Branca de Neve e os Sete Anões” de 1937, a empresa logo investiu na adaptação de Alice, porém a segunda guerra mundial travou as produções até 1951, devido ao baixo orçamento com o qual operavam. Com o tempo, o filme ganhou o status de cult; apesar de não ter tido a melhor das recepções na época.

Alice in Wonderland (1985)

alice-1

Filme feito para televisão em 2 partes, cobrindo os dois livros. Televisionado pela CBS, o longa trazia um grande elenco de estrelas, no papel de Alice tínhamos Natalie Gregory, atriz de vários seriados da década. O elenco também contava com Shelley Winters, vencedora do Oscar.  A história que se desenrola ao longo de aproximadamente três horas, é fiel e considerada uma das melhores adaptações do clássico.

Alice Through the Looking Glass (1998)

Kate-Beckinsale-Alice-Through-the-Looking-Glass

Protagonizado pela jovem Kate Beckinsale; o longa adapta, aos moldes modernos, o segundo livro de Carroll. É uma das poucas adaptações feitas dessa história em particular. Britânico, o filme foi dirigido por John Henderson.

Alice in Wonderland (2010)

274164

Adaptação mais recente até então. Dirigido por Tim Burton e com grande elenco, trazendo Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway e Mia Wasikowska. A trama ganhou um ar totalmente novo combinando os dois livros de Carroll. Agora com 19 anos, Alice acaba retornando ao país das fantasias, onde reencontra os personagens famosos de ambas as obras. O visual do longa é digno dos trabalhos de Tim Burton e por sua roupagem atual, conquistou um grande público, permitindo uma continuação que estreia 26/05, com o título: Alice Através do Espelho.

Por sua filosofia pontual, vários filmes utilizam da metalinguagem e conceitos de Alice em suas tramas. Em Matrix, Neo acolhe a ordem se seguir o Coelho Branco, representado por uma garota com tatuagem de coelho. Ele acaba aceitando um convite ao acatar a ordem e esses eventos o conduziram, de determinada forma, para Matrix. No livro, o personagem do coelho representa a transição de Alice entre os mundos. Coraline, livro de Neil Gaiman, traz uma espécie de releitura de Alice, a obra também foi adaptada para o cinema e conta a história de uma jovem garota que acaba descobrindo uma porta secreta em sua casa, passagem essa que a transporta para um mundo, a princípio, belo e fantasioso; a obra também apresenta um gato falante que ajuda a protagonista em seus caminhos, embora a trama seja soturna, vários elementos de Alice estão lá. Alice também inaugura, de certa forma, as histórias protagonizadas por crianças em mundos fantásticos. Obras como: Peter PanO Livro da Selva, entre outros; foram possíveis pelo sucesso da publicação de Carroll. Pouco era tratado sobre o universo da infância na época e o autor foi brilhante, pois conseguiu abordar o aspecto filosófico da questão.

Filosofia

Carroll foi um dos precursores em trabalhar com simbolização no conceito do “discurso”, trazendo discussões e questionamentos semânticos, lógicos e ideológicos, ao tempo que trabalha conceitos como identidade, sociedade e política; quase subliminares, pela fantasia envolvida. Mas dentre os temas filosóficos que o livro aborda, talvez o maior deles seja refente ao universo da infância. Alice, ao adentrar aquele mundo mágico, acaba se deparando com situações que fogem ao seu controle. Mesmo tendo uma educação vitoriana severa, a protagonista percebe que aquilo não funciona naquela realidade, uma metáfora perfeita para o amadurecimento. Algo evidente nos momentos que ela toma a poção que a faz crescer ou encolher; conceito diretamente ligado as questões da puberdade de uma garota. Em um diálogo com a Lagarta, Alice é questionada sobre quem ela é, e a protagonista responde dizendo que: “Já não sabia mais, pois havia passado por diversas mudanças.” Diálogo que claramente evoca a filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre e também permite várias interpretações analíticas na questão do crescimento/amadurecimento pessoal. Ainda dentro do campo do existencialismo, temos o clássico trecho onde Alice questiona o” Mestre Gato Sorridente” sobre qual caminho deveria tomar, o gato responde dizendo que: “Isso dependeria de onde ela gostaria de chegar.” Logo, Alice responde que: “Não importava.” E o gato diz: “Então não importa qual caminho tomar.” Logo temos a clara lição: “Para quem não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve.” Situação essa diretamente relacionada com a questão do auto-conhecimento. Claro que trabalhei de maneira breve e reduzida os conceitos trazidos por Carroll, unicamente para que o leitor tenha esse vislumbre do que pode encontrar nessa rica e cativante obra, um clássico atemporal, logo recomendado grandemente por mim.

 

Trailer e Alice Através do Espelho (2016)

 

Compre Alice no País das Maravilhas Aqui

Especial Produtos da Alice na Livraria Cultura nesse link

 

Renan Gonçalves

Geek assumido. Historiador, assíduo leitor, consumidor de cultura pop (o pop não poupa ninguém). Apaixonado por dinossauros e filmes desde que vi Jurassic Park no cinema! O filme que me desvirginou em 93. Fã de carteirinha de James Bond, desde que vi ele saindo com várias mulheres em todos os filmes, mas ele não me desvirginou (Eu acho). Apelido NAN ou Gaúcho, pois uso nó maragato e até de ginete algumas vezes!