10 filmes para entender/se apaixonar por cinema (parte 2)

Continuando com nossa lista dos 10 filmes para compreender e se apaixonar pelo cinema, trago os 5 longas restantes. Nossa lista até agora segue uma ordem cronológica que recomendo ao leitor quando vê-los, assim ele poderá assimilar o conteúdo apresentado em cada década específica, tornando fácil a compreensão da evolução dessa “linguagem cinematográfica” que abordo. Importante dizer ainda, que todos os filmes listados aqui, são filmes do meu coração; e que de alguma forma, permitiram uma mudança. Seja em minha forma de ver/pensar cinema, ou ainda, na minha própria maneira de ver a realidade. Prossigamos !

La Dolce Vita (A Doce Vida)

ladolcevita

Permanecendo nos anos 60, trago o filme do meu coração! O longa que, em uma lista de predileções, estaria em primeiro lugar; “A Doce Vida,” do brilhante italiano Federico Fellini. Falar de “A Doce Vida” é sempre uma tarefa árdua, quando o vi e vi tarde! Em 2011. Por tempos e diria que até hoje, penso muito sobre ele. A complexidade dessa obra no que diz respeito ao tratamento das relações humanas, é incomparável. Fellini utiliza de diálogos e de silêncios para elucidar o convívio, seja ele social, fraterno ou amoroso. Utiliza também de metáforas, situações e arquétipos de uma sociedade completamente blasé e hedonista, em busca de apontar aquilo que realmente somos, frente todas às adversidades e paradigmas dessa “doce vida”, que por muitas vezes não se mostra tão doce. O elenco acertado, conta com Marcello MastroianniAnita Ekberg, ambos artistas renomados da época. A história se passa em Roma, que após a segunda guerra mundial, passou a ser frequentada por várias celebridades e artistas de todo globo. O diretor aproveita desse momento e insere o protagonista; um jornalista (Marcello), que vive em meio à alta sociedade, embora nunca consiga se sentir, verdadeiramente, parte dela. Acompanhamos a narrativa através de sua visão e da maneira que ele desenvolve suas relações com os demais personagens dentro da trama, Fellini não economiza em situações que permeiam todas as instâncias de uma relação. O filme ainda é uma obra de arte quanto sua fotografia em preto e branco, com requintes noir, trazendo contrastes e iluminação sempre pontuais em cena. É importante dizer que o longa sempre aparece nas listas dos melhores filmes de todos os tempos e levou o Palma de Ouro no festival de Cannes em 1960.

2001: A Space Odyssey 1968 (2001: Uma Odisseia no Espaço)

2001

Apenas um ano antes do homem pisar na lua, em plena guerra fria, onde a URSS já tinha alcançado o espaço antes dos EUA, Stanley Kubrick nos brinda com um dos melhores filmes de todos os tempos; 2001: A Space Odyssey.” Kubrick, que já vinha do excelente “Dr. Fantástico” com uma crítica ao modo bélico do qual o mundo operava nesse específico momento, retoma com esse longa, entre outros temas, a humanidade e sua maneira de pensar/agir/refletir/evoluir/guerrear/explorar/conquistar. Logo, um total vislumbre sobre “nós mesmos”. O diretor alcança isso utilizando de metáforas pontuais, tão abstratas ao ponto de você nunca absorver todas as nuances por completo. Vale ainda lembrar que o roteiro foi escrito em paralelo com o livro, que ganhou o mesmo título, em parceria do grande mestre literário da ficção científica, Arthur C Clarke. O filme conta com uma fotografia espacial inédita, trazendo técnicas pioneiras, que até hoje são referência; tamanha precisão rendeu aos teóricos da conspiração, a teoria de que Kubrick, estaria por trás da chagada do homem à lua. Sendo o vídeo, um possível fake dirigido pelo diretor. É certo que 2001 sempre será uma obra para posteridade, sua filosofia retoma questões sobre a evolução humana propostas por Nietzsche, algo estampado no poema sinfônico “also sprach Zarathustra”, de Richard Strauss, ao tempo que suas tomadas abertas remetem à arte, do qual o filme presta um tributo tremendo. Logo, é consequência óbvia que o longa passeia por várias listas dos melhores filmes já feitos, sendo também o vencedor do Oscar de melhores efeitos especias.

Annie Hall 1977 (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa)

anniehall

Woody Allen, o consagradíssimo cineasta em constante atividade até os dias de hoje, não poderia ficar de fora dessa lista. Apesar de sua filmografia ser extensa, essa foi uma escolha fácil. “Annie Hall,”  lançado em 77, traz toda e gênese que o diretor utiliza e utilizou em sua carreira, e o faz de maneira inédita, brilhante e humorada. Rendendo 4 estatuetas do Oscar em 1978, incluindo melhor filme, diretor e roteiro original; além de melhor atriz para Diane Keaton. O longa estrelado pelo próprio Allen no papel de Alvy Singer, um comediante em Nova York, que vive uma conturbada vida. Divorciado e em constante terapia, o comediante se apaixona por Annie Hall (Diane Keaton) e ambos vivem então um típico relacionamento marcado por crises, discussões, diálogos densos, inseguranças, etc. O filme aborda relações conjugais de maneira bem humorada e sempre o situando no nosso cotidiano, que até poderia ser o nosso. O brilhantismo nos diálogos, é o ponto alto nos filme do diretor. E seus protagonistas geralmente compartilham do mesmo arquétipo de Alvy. Logo, seja para conhecer as origens de um dos diretores mais famosos da atualidade ou ainda receber algumas lições sobre relacionamentos, recomendo Annie Hall. PS: “A fotografia de Nova York está primorosa nesse longa, Allen situa grande parte dos seus filme lá.”

Stalker 1979

Stalker

Chegamos no diretor do meu coração! O russo Andrei Tarkovsky, que traz em “Stalker” poesia e filosofia à frente do plano “ficção científica”, o estilo pontual do diretor aparece em peso nesse longa, temos três protagonistas que estão no plano principal, sempre destacados nas tomadas primárias; longos e reflexivos diálogos existencialistas e moralistas, uma busca que parte de dentro de nós, no caso do filme, a fé. Entre outros tantos aspectos filosóficos que o diretor aborda e que sim é necessário grande capacidade de abstração, poucos entendem o cinema de Tarkovsky e poucos chegam ao final de seus longas, seja pelo ritmo lento, ou ainda pela linguagem onírica e simbólica que o diretor emprega em suas obras. Porém, mesmo um pequeno vislumbre abstraído de seu trabalho, já é o suficiente para nutrir uma paixão perene por esse diretor, e pelo tão rico cinema russo. Andrei realizava seus filmes na União Soviética, em plena guerra fria, onde artistas frequentemente eram perseguidos ou mal vistos pelo governo em sua postura autoritária. Um dilema presente, porém quase subliminar em sua obra, seu amor pela pátria era evidente. Quando deixou a URSS, nunca mais foi o mesmo, segundo o próprio. A fotografia empregada em seus filmes é rica, beira ou até transcende a poesia. Até os lugares mais simplórios, como vemos em Stalker, ganham um ar sublime nas mãos do diretor. Seria impossível apresentar uma sinopse de Stalker, a complexidade da obra não permite resumos ou reduções. Logo também é um dos meus filmes favoritos, recomendo para quem deseja dar um gigantesco passo na compreensão do cinema estrangeiro de maior qualidade.

Kramer vs Kramer 1979

KramervsKramer

E encerro essa lista ainda nos anos 70 e retomando o cinema americano, com um dos filmes mais tocantes e sensíveis que tive o prazer de ver e rever, “Kramer vs Kramer“. O longa traz no elenco Dustin Hoffman e Meryl Streep, no papel do casal Ted e Joanna Kramer, que por uma série de problemas, acaba se divorciando. Durante o processo Joanna deixa a casa e seu pequeno filho Billy, a trama se desenvolve pela visão do pai e também do garoto, onde ambos terão que conviver sem a figura de Joanna em suas vidas. Ted, logo tem que se tornar pai e mãe do meninoenquanto lida com problemas em sua carreira e casamento. A questão abordada por esse filme levantou uma discussão séria na América, no que diz respeito à guarda dos filhos em um divórcio, gerando na época uma pequena comoção sobre. O longa traz uma relação paternal cotidiana, que ao decorrer da fita, evolui e cria fortes laços. Tudo em cena é sutil, até mesmo os momentos mais densos são tratados de maneira branda e recolhida. Uma curiosidade do longa é que Meryl Streep havia acabado de perder seu marido John Cazale, que falecera de câncer em 1978, é visível o quanto a atriz estava emocionada em Kramer vs Kramer, podemos notar em cada cena, tornando a trama ainda mais interessante e real. Recomendo fortemente essa fita dirigida por Robert Benton, responsável por “Superman: O Filme” e outras grandes produções dos anos 70.

A primeira parte da lista você encontra aqui!

 

 

Renan Gonçalves

Geek assumido. Historiador, assíduo leitor, consumidor de cultura pop (o pop não poupa ninguém). Apaixonado por dinossauros e filmes desde que vi Jurassic Park no cinema! O filme que me desvirginou em 93. Fã de carteirinha de James Bond, desde que vi ele saindo com várias mulheres em todos os filmes, mas ele não me desvirginou (Eu acho). Apelido NAN ou Gaúcho, pois uso nó maragato e até de ginete algumas vezes!