[Review] Batman: A Piada Mortal

Animação mantém padrão de qualidade da DC Comics, mas peca em relação ao seu foco

Em meio ao trabalho de uma adaptação, seja ela para televisão ou cinema, é comum ouvir por parte de fãs que determinadas obras e características sempre devem ser levadas em consideração devido ao seu peso fundamental em sintetizar as motivações ou, até mesmo, a psique de seus principais personagens. Para os milhões de fãs da DC Comics espalhados pelo mundo, Batman – A Piada Mortal certamente configura-se dentro desse patamar.

Lançada em 1986, a graphic novel escrita por Alan Moore e desenhada por Brian Bolland alcançou tal status devido a forma memorável como elucidava as principais motivações e origens do Coringa, fazendo assim o personagem se tornar ainda maior dentro da cultura pop. Agora, 30 anos depois, a aguardada adaptação animada homônima chega para celebrar a importância da HQ original, mas sofre justamente ao lidar com o espaço narrativo de seu principal “protagonista”.

Realizando concessões esperadas para alongar seu tempo de duração, a animação decide empregar sua primeira metade para apresentar uma trama inédita com a Batgirl (voz de Tara Strong) e sua relação com o Batman (voz de Kevin Conroy), com detalhes que podem (e certamente irão) causar certo descontentamento por parte de alguns fãs, mas sendo muito bem executada. A escolha é esperada muito devido à importância de Barbara Gordon nos acontecimentos posteriores do filme e também dentro do panorama atual de HQ’s da DC, sendo uma das personagens que possuem mais identificação com o público jovem e refletindo importantes valores sociais da atualidade, como empoderamento feminino. Contudo, a junção desses acontecimentos com a linha narrativa principal, quando somos apresentados ao Coringa (novamente dublado pelo excelente Mark Hamill) e seu plano de enlouquecer o comissário Gordon (voz de Ray Wise), transmite uma sensação de desconexão e estranhamento, não tornando as ações do Príncipe Palhaço do Crime mais aterrorizantes do que já eram por si só. Compreendemos que o envolvimento de todos os personagens sobre essas ações, mas o desenvolvimento e as reações dos mesmos não parecer transmitir o peso do que está ocorrendo.

E é justamente nesse peso oferecido para as ações e escolhas do Coringa onde o roteiro de Brian Azzarello parece ter se perdido do caminho original. Ainda que contando com diálogos e quadros transmitidos de forma quase inalterada, Batman – A Piada Mortal torna-se um exercício maior de um filme de animação com bons diálogos e boas cenas de ação do que um estudo essencial de um personagem tão denso e complementar como o Coringa. Os flashbacks de sua suposta vida passada, a descoberta por parte daquilo que o move, sua teorização sobre a sanidade da sociedade e o “dia ruim” (em um dos melhores monólogos da história das HQ’s), a queda no tanque químico, tudo se encontra ali. Contudo, a falta de desenvolvimento e (do já mencionado) peso faz com que esses momentos se tratem mais de um auxílio narrativo e “fanservice” do que propriamente a história que se pretendia contar inicialmente.

Ao final, é inevitável a sensação que, em meio à tantas adaptações audiovisuais já realizadas com o Cavaleiro das Trevas e seu arqui inimigo, Batman – A Piada Mortal tenha se tornado um produto competente, mas comum. O alto nível das animações da DC Comics está mantido, mas poderia ter se elevado ainda mais com todo o potencial que possuía, assim  como fez uma das mais importantes histórias em quadrinhos de todos os tempos.

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.