[Review] Jason Bourne 2016

Quinto filme da franquia entrega episódio frenético e muito bem orquestrado, mas com poucos sinais de novas direções

Quando O Legado Bourne estreou com Jeremy Renner em seu papel principal, uma das grandes críticas feitas em relação ao filme foi a sensação de “fadiga da franquia”, ao se aproveitar do buzz da trilogia original estrelada por Matt Damon para criar um derivado caça níquel sem o mesmo brilho. Após quase 10 anos de O Ultimato Bourne, Damon e o diretor Paul Greengrass retornam com Jason Bourne para entregar seu “verdadeiro” quarto capítulo.

Grande parte da expectativa envolvendo os retornos de Damon e Greengrass é um claro sinal que a franquia se tornou uma propriedade intelectual de seus “idealizadores”, fruto de uma visão realista e sisuda do cinema de espionagem tão glamourizado em filmes como Moscou Contra 007 ou Missão Impossível. Jason Bourne não se trata de um espião que goza dos benefícios de sua profissão. Suas habilidades e conhecimentos sempre foram seu grande fardo após uma vida de serviços ao Serviço Secreto Americano. Esse ineditismo “inteligente” marcado nos filmes anteriores (debater temas recorrentes do mundo da atualidade, mostrar as grandes instituições de inteligência como as verdadeiras orquestradoras de operações maquiavélicas e revelar a “realidade” por trás da ação executada pelos agentes) ainda é uma característica marcante em Jason Bourne. Coincidentemente, essa é sua maior benção e maldição.

Ao realizar o retrato atormentado de um espião que ainda paga pelo preço de seus atos passados e precisa revidar a nova perseguição que sofre, Greengrass sabe como poucos criar uma atmosfera frenética e empolgante de ação incessante, sempre localizada em diferentes pontos por todo mundo (outra característica marcante da franquia), aliada à sua (amada e odiada) “shaky cam”, a trilha sonora de John Powell e uma edição rápida centrada no foco principal da ação. A cena de perseguição de carros em Las Vegas no clímax é o retrato máximo de sua capacidade enquanto diretor de ação para entregar a catarse esperada pelo público em filme como esse. O roteiro, escrito por Greengrass e pelo editor Christopher Rouse, também tenta acompanhar o mundo de seu novo Bourne às questões que permearam a opinião pública nos últimos 10 anos, como a presença de figuras como Mark Zuckenberg e Edward Snowden e como isso afeta o campo da privacidade e vigilância, tão mútuos e destoantes ao mesmo tempo.

Entretanto, a escolha de trazer o Bourne de Matt Damon de volta consequentemente implicaria na continuidade de seu personagem após um arco pré-estabelecido e desenvolvido ao longo de 3 filmes de conhecimento sobre quem havia sido e quem desejava se tornar a partir de agora. Sabemos que suas habilidades nunca irão deixar de lhe acompanhar. Afinal, por mais que se trate de uma tratativa realista do mundo da espionagem, Bourne ainda é um personagem criado para ser a mais perfeita máquina de matar. Quando o encontramos no filme, ele ganha sua vida como um boxeador em lutas clandestinas nas periferias de Atenas, ainda se isolando e fugindo de seu passado. Então, ao ser procurado pela personagem de Julia Stiles, toda a caçada recomeça, novamente trazendo novas pistas sobre seu passado e quem o transformou de David Webb em Jason Bourne, agora com o envolvimento de seu pai. Não há um sinal claro de um frescor ou rumo que o personagem poderia seguir a partir de agora, apenas uma inevitável repetição de passos que conhecemos anteriormente de outros capítulos.

Tudo isso leva à um inevitável questionamento: ainda que conte com Greengrass e Damon em sua equipe, a franquia ainda sabe quais passos trilhar daqui para frente? Ou estaria se tornando refém de uma estrutura e visão apresentada pelos mesmos há mais de 10 anos? Um dos grandes respiros trazidos pela franquia Bourne foi sua capacidade de inserir o público em um contexto reconhecível, dentro de características do mundo real, para criar uma sensação de que se sabe tanto quanto o protagonista, mas não aquilo se encontra por “debaixo dos panos”. Contudo, é importante relembrar que, ainda que seus principais elementos e criadores estejam envolvidos, isso não garante que estejamos vendo algo propriamente novo. Apenas algo repaginado realizado de forma muito competente. A torcida é que essa atualização também possa chegar ao personagem e não apenas ao seu contexto, para que Jason Bourne ainda continue trazendo suas mudanças e inovações bem-vindas ao mundo do cinema de espionagem.

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.