Robotflix: O Enigma de Outro Mundo (1982)

Começando a nossa nova proposta, o Robotflix vem com o intuito de apresentar filmes ou séries do catálogo da Netflix que o pessoal pode não conhecer. Vamos começar então com esse clássico do cinema. Acompanhem a matéria.

John Carpenter eleva seu domínio do horror ao fazer mescla com ficção científica e cria sua obra máxima

É de costume afirmar que o tempo é o dono da razão, onde a maior verdade prevalece com seu passar e somos revelados qual a verdadeira honestidade por trás de julgamentos e presunções que podem ser feitas de forma equivocadas previamente. O caso de O Enigma de Outro Mundo, lançado no mesmo verão no ano de 1982 juntamento com E.T. – O Extraterrestre e Blade Runner – O Caçador de Androides, se mostra um tanto quanto curioso. A avalanche de bilheteria que E.T. se tornou à época ofuscou o brilho de Blade Runner e ainda mais para O Enigma De Outro Mundo. Contudo, ainda que o apelo inicial da crítica da época não tenha sido extremamente positivo, foi através do cult following das locadoras e festivais de cinema (assim como Blade Runner) em que O Enigma de Outro Mundo se configurou como uma das obras essenciais de seu gênero e influenciou gerações de cineastas que estariam por vir.

Na primeira review sobre tesouros perdidos disponíveis no catálogo da Netflix, a nova “locadora” dos dias atuais, falar sobre O Enigma de Outro Mundo se mostra uma tarefa obrigatória. Inspirado em O Monstro do Ártico (1951), que por sua vez se baseia no conto de John W. Campbell Jr. Who Goes There?, John Carpenter retoma sua parceria com Kurt Russell, de Fuga de Nova York (1981), ao contar a história de um grupo de cientistas americanos completamente isolados em uma base na Antártida que são atacados por uma estranha criatura alienígena capaz de absorver e copiar a forma de qualquer uma de suas presas, fazendo com que não se saiba em quem se pode mais confiar. A premissa do filme que serviu de inspiração para Carpenter, assim como o conto original, não se tratavam de uma quebra de confiança entre os membros do grupo de sobreviventes, mas sim pelo jogo de caça e caçador, como uma alusão para a ameaça dos “aliens” soviéticos infiltrados na comunidade norte-americana, com o temor representado pela Guerra Civil se tornando cada vez maior.

Ainda que situado em uma época também alusiva à questão, Carpenter optou por seguir um caminho diferente, ao criar um thriller pautado pela ficção científica e pelo horror gráfico. Conhecido por seu ótimo desempenho com produções de baixo custo, como Halloween (1978), que lhe conferiu fama internacional, Carpenter não revela apenas manter suas características anteriores, mas também apresenta uma evolução ao dominar a união da criação do suspense crescente sobre o desconhecido com as aparições sempre gratas de sua criatura. O monstro de Carpenter, acima de uma evocação ao cinema feito com esmero de uma produção cuidadosa, é uma ode aos efeitos, mesmo que cafonas se olhados pela perspectiva atual, que permearam o cinema de horror das décadas de 1970 e 1980. Fã confesso de Hitchcock, sua demonstração desse joguete de aparições e revelações realizado com o público, com quase nenhuma trilha sonora presente, é sua prova cabal de seu amor pelo gênero.

Esse amor é o grande triunfo remanescente de O Enigma de Outro Mundo. Ainda que possua um ritmo lento para os olhos do público moderno, sua importância se conferiu justamente pela retratação primorosa de uma história que combinava suspense, horror e ficção científica, cativando gerações de jovens cineastas em formação que apontam a obra máxima de Carpenter como uma de suas grandes influências enquanto cresciam colados em suas televisões. O que aumenta a curiosidade em torno da produção, pois pelo lado de Carpenter, sua maior intenção era de recriar e homenagear uma das obras que o mais o influenciaram enquanto crescia. E, de uma maneira muito singela, a justiça oferecida pelo tempo foi a passagem adiante do mesmo amor de Carpenter. Não deixe de conferir O Enigma de Outro Mundo em seu Netflix e conheça mais um dos filmes de ficção científica mais importantes dos últimos anos!

 

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.