[Robotflix] Confiar

Drama inverte expectativas ao abordar lado mais humano das consequências da pedofilia dentro na era moderna

Ao longo de diversos anos, o grande cinema norte-americano se caracterizou por entregar em seu terceiro ato, na maioria dos casos, uma catarse onde o protagonista finalmente é capaz de superar as adversidades impostas pelo seu antagonista ao longo de toda a trama e as relações de justiça e equilíbrio moral são restabelecidas, oferecendo ao público uma sensação de conforto e esperança. Essa fórmula do escapismo permeou por diversos gêneros, exercitando normalmente a ambiguidade entre o “bem” e o “mal”, onde respostas são oferecidas de forma rápida e prática. Segundo trabalho de David Schwimmer (o Ross de Friends) como diretor e nossa dica do Robotflix de hoje, Confiar opta por trilhar um caminho oposto ao que se convencionou nos últimos anos dentro do gênero de dramas policiais.

Na trama, somos apresentados a Annie (Liana Liberato), uma adolescente que começa a lidar com questões comuns de sua idade, como aceitação e a descoberta de sua sexualidade. Seus pais, Will (Clive Owen) e Lynn (Catherine Keener), procuram ter uma relação de confiança, mantendo regras e conhecendo a vida de seus filhos, mas ocupações cotidianas tomam muito de seu tempo. Em seu aniversário de 14 anos, Annie ganha um notebook como presente e começa um relacionamento virtual com Charlie, que acredita ser um jovem de 16 anos. Ao marcar um encontro, Annie descobre que Charlie (Chris Henry Coffey) se trata de um homem de mais de 30 anos, que consequentemente a abusa fisicamente e psicologicamente. Ao revelar as consequências psicológicas desse acontecimento em seus personagens e a maneira como esse desenvolvimento é conduzido é o que torna Confiar uma experiência valiosa.

A escolha do roteiro de Andy Bellin e Robert Festinger, assim como a direção de Schwimmer, em abordar os aspectos da destruição psicológica refletida não apenas em Annie, mas também em Will, como um segundo foco principal, traz uma nova perspectiva humana ao filme. Seria muito comum estabelecer um jogo de gato e rato contra o pedófilo, para que o desejo do público por justiça seja saciado ao seu final, mas Confiar se mostra devidamente preocupado em não nos fazer preocupados com o destino de seu vilão, mas sim de suas vítimas. A presença da terapeuta de Viola Davis e as cenas de sessões com diferentes membros da família demonstram justamente que, por mais precavidos e sensatos que possam ter sido ao longo de suas vidas, a ferida aberta pelo ato de Charlie não remete ao erro ou falha de algum de seus personagens, mas como o “mal” se estabelece de maneiras incontroláveis e afeta aqueles que menos esperamos.

Preocupado em não apontar culpados por suas tragédias ou fazer com que o “bem” supere o “mal”, mas que se aprenda a lidar com o “mal” que se esconde em nosso cotidiano, Confiar aborda com coragem e delicadeza suficientes os efeitos de alguns monstros que não são tão simples de serem esquecidos como nos convencemos a acreditar, pois, enquanto representantes do “bem”, precisamos lidar com as cicatrizes deixadas pelo “mal” algumas vezes.

 

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.