[Robotflix] The Babadook

Quando o verdadeiro horror reside dentro de nós mesmos

Nas últimas décadas, o gênero do horror dentro do cinema tem sofrido com uma perda de apelo cada vez maior perante o público. Entre tentativas fracassadas de remakes e/ou reboots de grandes franquias, como A Hora do Pesadelo ou Sexta-Feira 13, até o estabelecimento de novos subgêneros, como o Torture Porn em obras como Jogos Mortais e O Albergue, uma característica interessante que o horror cinematográfico tomou foi de retornar às suas raízes de “ cinema independente”, como algo que apenas seus  “verdadeiros” entusiastas (ou de cinema de uma forma geral) poderiam apreciar plenamente, ainda que bons filmes tenham se tornado cada vez mais raros. Comparado ao legado que o gênero alcançou nas décadas de 1970 e 1980, seu caminho nos dias atuais se tornou um tanto quanto melancólico. Contudo, algumas obras se destacaram ao longo desse caminho e trouxeram uma nova esperança de surgimento de grandes cineastas do gênero. Por isso, como nossa dica para o Robotflix de hoje, iremos falar sobre o horror australiano The Babadook.

 

The Babadook

 

A trama de The Babadook envolve a vida de Amelia (Essie Davis), uma jovem viúva que precisa lidar com seu problemático filho de 6 anos, Sam (Noah Wiseman), assim como todas as repercussões internas e externas do falecimento de seu marido Oskar (Benjamin Winspear). Sam é hiperativo e tem crises de ansiedade, o que acarreta em um sofrimento ainda maior para sua mãe e constantes pedidos de leitura antes de dormir. Em uma noite, Sam pede para que Amelia o leia um livro que encontrou em sua estante chamado Mister Babadook. Ao perceber o conteúdo perturbador do livro, Amelia o fecha imediatamente, para perceber que ela e Sam começam a ser atormentados pela criatura. Ainda que sua trama evoque clássicos elementos do terror moderno, como a punição pela maternidade e a utilização do lar como ambiente desconfortável pela criatura, The Babadook não se trata meramente de um “filme de monstro”, mas sim de um filme sobre “quem é o monstro”. A criatura tem aparições esporádicas, até mesmo durante o dia, demonstrando uma onipresença poderosa e assustadora. Mas qual é sua origem e sua verdadeira intenção?

Ao adentrar nesse quesito, a diretora e roteirista estreante Jennifer Kent atinge o ápice de seu desenvolvimento. Ainda que o tormento causado pela criatura seja enorme, sua busca consiste em nos revelar que nossos demônios interiores são aqueles que realmente buscam nos flagelar. Ao evitar atalhos preguiçosos conhecidos, como o “jump scare” ou o “barulho do animal da casa”, The Babadook cria uma atmosfera que mostra que nada é mais aterrorizante do que o monstro que criamos para nós mesmos. Auxiliada pela interpretação brilhante de Essie Davis, Kent realiza um trabalho primoroso em elucidar os grandes horrores que enfrentamos em nosso cotidiano em batalhas que nem sempre conseguimos ganhar, mas que aprendemos a lidar com suas consequências. O suspense criado de The Babadook não é um indicativo claro que algo de ruim está para acontecer, mas que está acontecendo, extravasando esse sentimento guardado em seus personagens.

Grande fenômeno de festivais de cinema por todo o mundo, The Babadook merece um atenção especial por parte dos fãs do horror e, principalmente, do grande público, tão carente de obras que tragam o susto de uma forma imaginativa e bem executada. Presente no catálogo da Netflix, aproveite para conhecer mais sobre essa grande obra contemporânea.

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.