[Review]: Águas Rasas

Jaume Collet-Serra renova seu domínio do suspense enquanto entretenimento descompromissado

 

Nos últimos anos, Liam Neeson tem se tornado uma figura recorrente  entre o grande público dos cinemas. Com filmes policiais e aventurescos de fácil consumo, seu nome foi associado à uma forma de “cinema passatempo” graças à sua capacidade de convencimento enquanto ator de ação e estrela de potenciais franquias. Porém, um nome que esteve por trás de três dessas produções estreladas por Neeson foi o do Jaume Collet-Serra, o diretor espanhol responsável pelos thrillers Desconhecido (2011), Sem Escalas (2014), Noite Sem Fim (2015), além do terror A Orfã (2009). Todas essas produções se caracterizaram justamente por oferecerem um entretenimento convincente, ainda que sem muito brilho. Partindo dessa vez para o “suspense de sobrevivência”,  Águas Rasas reforça o que já conhecemos de Collet-Serra.

Na trama, Nancy (Blake Lively) é uma estudante de medicina que passa por um momento de reflexão em sua vida após o falecimento de sua mãe. Surfista nas horas vagas, ela decide ir até a praia paradisíaca e isolada que ouviu através das histórias de sua mãe para encontrar novamente suas convicções. Em sua primeira tarde na praia, Nancy é atacada por um tubarão-branco, mas consegue escapar ao se refugiar em uma rocha isolada em meio ao oceano, enquanto busca maneiras de sobreviver ao animal atento aos seus movimentos. Águas Rasas se torna um caso curioso no grande cinema americano recente devido à falta de filmes que abordam ataques de tubarões, se tornando um subgênero de horror em desuso principalmente pela inevitável comparação com Tubarão (1975). Contudo, o tubarão é, na realidade, mais uma alegoria de agravamento dentro do drama vivido por Nancy, esse sim o verdadeiro tema abordado pelo filme.

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A opção em se caracterizar Águas Rasas como um filme de sobrevivência e não um filme de criatura se mostra um acerto em termos de construção de suspense e uma falha em termos de construção de sua dramaticidade. Collet-Serra sabe como utilizar e brincar com nossas expectativas em relação ao iminente ataque da criatura, em takes realizados com muita competência, assim como o desenrolar da ação do confronto de Nancy com o tubarão, mostrando que soube interpretar as razões pelas quais Tubarão (1975) se tornou um sucesso. Blake Lively também acaba se mostrando uma escolha acertada e competente como a cidadã comum jogada em uma situação extraordinária da natureza, usando seu carisma para se criar uma rápida empatia com sua personagem, ainda que saibamos pouco sobre ela. Contudo, o roteiro de Anthony Jaswinski oferece pouca substância para realmente nos relacionarmos com Nancy além de sua situação. A falta do desenvolvimento do arco dramático de Nancy, assim como todo seu background utilizado de forma gratuita no primeiro ato, acaba por minar um potencial que Águas Rasas poderia apresentar ao espectador, se valendo valer muito mais por suas soluções visuais de ação de Collet-Serra, sempre preocupadas em utilizar acessórios como smartphones e GoPro’s para conversar com as gerações mais jovens.

Águas Rasas se mostra como um competente exemplo de entretenimento moderno, graças à maioria de seus realizadores. Se a substância e o “tempero” fossem agregados à sua inevitável tensão, poderíamos ser brindados com uma experiência original extremamente bem-vinda. Contudo, a especialidade de Collet-Serra ainda se mantém presa aos seus padrões habituais. A torcida é que seu entretenimento possa encontrar a profundidade que ainda lhe resta daqui para frente.

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.