[Robotflix] The Get Down

Série cria odisseia musical que preza por sua pluralidade e foge de estéticas do musical convencional

Após o sucesso de Moulin Rouge, Baz Luhrmann se tornou um maiores nomes modernos associados ao gênero do musical em Hollywood. A continuação de sua carreira flertou com o gênero continuamente, mas o brilho nunca voltou a ser o mesmo. Ao tomar as rédeas de produtor da nova empreitada da Netflix dentro do gênero, uma expectativa positiva foi criada em torno do resultado final. Dessa maneira, The Get Down se mostrou uma grata surpresa ao entregar muito mais do que números musicais bem executados, mas uma história competente e uma construção histórica repleta de personagens cativantes. Por isso, essa é nossa dica para o Robotflix de hoje!

A série retrata as mudanças do movimento musical que aconteceram em bairros periféricos de Nova York, como o Bronx, após o início da queda da disco music e o surgimento de um novo gênero, o hip hop, surgido através da criatividade dos músicos presentes e das novas perspectivas presentes. The Get Down poderia escolher se manter focada apenas seu universo musical, ao nos apresentar leves toques dos personagens e panoramas responsáveis pela criação do hip hop. Contudo, um de grandes méritos da produção foi sua preocupação na retratação histórica do momento e local onde os acontecimentos se passaram. A pobreza e a violência eram características marcantes na Nova York dos anos 70 e 80, refletindo em aspectos que influenciam diretamente na vida e ideologia dos protagonistas.

Um ponto marcante de The Get Down é a forma escolhida para se abordar os diferentes ambientes: o musical e o histórico. Quando estamos ao lado de fora das ruas, a paleta de cores é permeada por tons de cinza e cores mais desbotadas. Ao entrarmos no mundo das discotecas, o brilho toma conta e renova a energia presente, com cores vibrantes. Diversas cenas vão do disco ao funk e funcionam como um catalisador da história e dos sentimentos de seus protagonistas, que almejam não apenas sua música, mas também grandes amores, vidas melhores para suas famílias. Ao sermos levados para esses dois mundos, The Get Down revela a pluralidade de seus personagens e como essas diferentes etnias e características foram essenciais para que toda a criação musical do local implodisse. E Luhrmann aparece ao oferecer seu toque na produção, em termos estéticos dos números musicais, mas sem apelar para o detalhamento de emoções através das músicas, mas sim na narrativa da série.

Contando com um time criativo composto por grandes nomes da música como Nas, Grandmaster FlashKurtis Blow, DJ Kool Herc Afrika Bambaataa, The Get Down cria uma atmosfera histórica que respeita os elementos e integrantes responsáveis pela evolução de gêneros musicais que influenciam a indústria fonográfica até os dias atuais. A Netflix confirma novamente sua capacidade em entregar obras memoráveis, desta vez partindo para um gênero ainda inexplorado.

 

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.