[Review] Café Society

Woody Allen utiliza a Hollywood romântica como pretexto para se ater ao cinismo da vida

 

Ainda que seja um diretor consagrado em Hollywood, Woody Allen sofre com os rodeios de temas que cerceiam constantemente seus filmes. Sempre pautado pela incredulidade das situações constrangedoras causadas pela vida, a arte como centro e a retratação das expectativas de seus protagonistas contra sua realidade, Allen soube reinventar como poucos os novos olhares que poderia dar uma nova roupagem nesses mesmos temas. O que Café Society faz (e bem), apesar de toda a veiculação que demonstrava se tratar de uma homenagem à grande Hollywood das décadas de 30 e 40 (o que, de certa forma, não deixa de ser), é justamente utilizar o pretexto da romantização e o idealismo representados nesse espaço tempo em particular para reverberar a visão de Allen de nossa existência.

A trama retrata a ida de James (Jesse Eisenberg), um jovem judeu nova-iorquino que se muda para Los Angeles ao final dos anos 1930 e que busca se ver em meio às grandes estrelas da época, com a ajuda de seu tio (Steve Carell), o grande agente por trás delas. Ao iniciar um período de trabalhos no estúdio do tio, James conhece e se apaixona pela secretária Vonnie (Kristen Stewart), sem desconfiar que ela mantém secretamente um romance extra conjugal com Carell. É interessante se notar a escolha de retratar a história em dois locais diferentes e extremos (Nova York e Los Angeles) para servir ao propósito de Allen em nos apresentar justamente sua representação de sonhos e decepções: L.A. é a representação máxima do mito envolto de estrelas e luxo, Nova York é como o local onde a verdadeira realidade da família suburbana acontece.

Dadas às circunstâncias que afligem cada um de seus personagens, Allen recria sua odisseia tragicômica onde o idealismo perde seu espaço perante a dureza das relações humanas, estabelecidas em interesses mesquinhos e desilusões seguidas de uma ironia inerente, uma marca registrada do humor autodepreciativo de Allen e de sua criação judia. Essa retratação melancólica ganha ares maiores graças à fotografia de Vittorio Storato, que sabe estabelecer visualmente os contrastes dos ambientes e momentos criados pelo seu diretor. O sol é um aliado poderoso de Allen ao estabelecer a leveza de sua comédia e Storato se utiliza desse precedente para evocar uma beleza não costumeiramente vista nos filmes de Allen.

Se utilizando de grandes personagens com jornadas de um crescimento moral duvidoso, Allen é capaz de entregar uma obra que não se pauta pela romantização de sua época, mas que também traz uma decepção inevitável com o estilhaço de sonhos não concretizados pelo escrutínio da vida. O que se torna também incrivelmente inevitável é a reflexão trazida para seu espectador perante uma situação familiar em sentimento, mas não em caso. O mundo não é um local onde sonhos costumam se realizar de maneiras belas, caso se realizem. Mas Allen sabe que a beleza de uma tragédia está em oferecer uma história mais fiel à nossa natureza errante.

 

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.