Últimos Dias No Deserto: Um longa bíblico diferente

“Quando pensamos sobre produções bíblicas no cinema, logo pensamos sobre os grandes épicos de outrora, além de outras produções que também despontam em nosso contemporâneo, mas que em sua grandiosidade visual, pouco permitem um cuidado maior com a história. “Últimos Dias no Deserto”, o longa que trás a representação do evento ocorrido no evangelho de Mateus, chega para mudar esse paradigma, e o faz munido de muitos requintes do bom cinema autoral.”

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Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.” (Mateus 4:1). Esse é o início da narrativa bíblica que inspira o novo longa do diretor colombiano Rodrigo Garcia (Albert Nobbs). A passagem do novo testamento ilustra o embate entre Jesus e o Diabo, ocorrido no deserto da Judeia, onde o filho de Deus peregrinou por 40 dias e 40 noites em uma jornada de autoconhecimento; jornada essa que é o ponto chave para o desenvolver da trama no decorrer da fita; e que apresenta a dinâmica humana pela qual Jesus teve que passar antes de se consolidar O Cristo. 

Desde o início percebemos a força da fotografia de Emmanuel Lubezki (Árvore da Vida). A intensa luz sempre presente em cena, reafirma a densidade e beleza do deserto que serve de palco para o longa, ao tempo que o diretor utiliza de takes bem posicionados e movimentos suaves de câmera para construir sequências delicadas e contemplativas. A trilha sonora contribui para tal percepção, sempre pontual ao surgir tênue e que entrega a sensação de solidão presente no inóspito local. Essa sensação ainda é potencializada pela vastidão do ambiente, sempre valorizado em suas tomadas abertas, e que sugerem uma infinitude desértica do qual nosso protagonista deve percorrer. Ewan McGregor é convincente e genial ao interpretar Jesus e o Diabo simultaneamente; essa escolha acerca dos papéis é um forte artifício metalinguístico e utilizado para evidenciar que o maior desafio do protagonista, é seu lado humano em conflito com o cruel deserto e com as situações propostas pelo astuto inimigo, esse sempre pontual ao questionar Jesus sobre a sacralidade de sua passagem na terra e sua relação com o “Pai.” Ambos mantém uma dicotomia óbvia, mas que é complexa em seu desenrolar; é perceptível o quanto Jesus sofre inicialmente com as investidas dolorosas do Diabo, mas o diálogo entre os dois é desenvolvido de tal forma, onde podemos sentir que ao final, ambos tiraram valorosas lições sobre o ocorrido. A trama não aponta o exato momento da passagem de Cristo pelo deserto, embora saibamos se tratar dos últimos dias, o peso da jornada e das situações aumentam a sensação de longevidade da passagem; o que nos leva à reflexão sobre não ser o tempo decorrido, mas sim, sobre o modo como encaramos às adversidades que pautam a dinâmica da travessia, por qual todos nós passamos em determinado momento.

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Por fim, todas essas características apontadas, configuram “Últimos dias no Deserto” como um ótimo trabalho autoral, brilhante em sua qualidade técnica voltada exclusivamente para ampliar a experiência da narrativa; e que apresenta a travessia de Cristo tratada de maneira intimista e humana, onde o próprio Jesus perpassa pelas dúvidas, adversidades e reflexões que são cabíveis a nós, em nosso panteão de questões existencialistas. Apesar da temática religiosa que confere tom ao filme, a trama é puramente sobre o trato humano, pautando a fita longe das últimas produções bíblicas lançadas e se aproximando da verdadeira mensagem proposta pelas escrituras acerca de nossas próprias vidas. Vale lembrar ainda que o longa fora exibido no festival de Sundance do ano passado, sendo muito bem recebido.

Confira o Trailer:

 

 

Renan Gonçalves

Geek assumido. Historiador, assíduo leitor, consumidor de cultura pop (o pop não poupa ninguém). Apaixonado por dinossauros e filmes desde que vi Jurassic Park no cinema! O filme que me desvirginou em 93. Fã de carteirinha de James Bond, desde que vi ele saindo com várias mulheres em todos os filmes, mas ele não me desvirginou (Eu acho). Apelido NAN ou Gaúcho, pois uso nó maragato e até de ginete algumas vezes!