[Robotflix] Califórnia

Marina Person mostra o deslumbramento e sensibilidade da juventude em sua estreia como diretora de ficção.

 

Desde a década de 90 até os dias atuais, o cinema nacional sofreu diversas reestruturações para que pudesse retomar seu desenvolvimento de forma contínua a partir de então. Contudo, o audiovisual brasileiro tem sofrido para encontrar um ponto de sua grande produção que escape de obras de comédias “neo-chanchada” que perpetuam em grandes circuitos comerciais. Com isso, como forma de incentivar nosso cinema independente e levar novos títulos para todo o mundo, o Robotflix irá abordar, semana à semana, os títulos disponíveis para votação no Prêmio Netflix. Você poderá conferir cada um dos filmes e votar em seu favorito! O escolhido da semana é Califórnia, de Marina Person.

A Califórnia, enquanto espaço geográfico, sempre foi retratada como um local de sonhos e deslumbramento. Morada de grandes estrelas da cultura pop mundial e espaço de descobertas de novas experiências, não é por acaso que o estado norte-americano foi escolhido como símbolo-título de Califórnia, primeiro filme de ficção comandado por Marina Person. A busca da ex-VJ em sua obra não era a de retratar seus ambientes ensolarados e paradisíacos. Mas o significado que locais, pessoas, bandas, filmes e inúmeras outras coisas podem possuir para nós enquanto jovens (e como esses mesmos nos são resignificados conforme amadurecemos).

Passado em 1984, o longa retrata a história de Estela (Clara Gallo), uma adolescente de 17 anos que sonha com uma viagem para a Califórnia há mais de 2 anos, devido ao fato de ser onde Carlos (Caio Blat), seu tio e grande ídolo, mora. Sempre recheado de novas dicas musicais da época, Carlos desperta todos os anseios juvenis de Estela sobre quem deseja se tornar. Até que sua viagem se realize, Estela precisa lidar com os convívios diários da escola, assim como sua queda por Xande (Giovanni Gallo), um popular surfista e sua reputação perante seus colegas. Contudo, quando JM (Caio Horowicz), um novo aluno com visual gótico, chega, Estela se vê conflitante em relação ao seus desejos, o que só piora quando Carlos retorna dos EUA adoecido por uma enfermidade desconhecida, que o deixa extremamente magro e debilitado.

Ao criar uma ambientação crível em relação ao tempo e espaço localizados no longa, Person demonstra um domínio muito grande das emoções que procura inserir na construção de cada cena. Sempre embalado por ótimas música da época, Califórnia se torna extremamente bem sucedido em retratar o romanticismo envolvido costumeiramente em obras que abordam a juventude da década de 80, como John Hughes exemplificou de maneira categórica. É justamente sob esse aspecto que tais filmes se tornaram referências atemporais sobre sentimentos, preocupações e frustrações desta fase da vida, onde o crescimento emocional é uma rotina constante. Ao tocar em temas como a perda da virgindade, Person revela uma faceta extremamente humana de seus personagens, longe dos costumeiros estereótipos, ainda que construídos sob os arquétipos da época.

Porém, ao engatar em sua segunda parte, o longa perde um pouco de seu fôlego, ao diminuir a força que possuía com o personagem de Caio Blat e dando mais ênfase ao arco de Estela e JM, fazendo com que o papel da “Califórnia” do título enquanto uma representação se torne uma tanta desconexa. Nada que comprometa o resultado final. Califórnia é um ótimo “cartão de apresentações” de Person, revelando que o Brasil pode contar com uma cineasta promissora e que procura trazer temas universais para sua obras. Um sopro de ar fresco que sempre será bem-vindo para um cenário que ainda busca sua própria identidade, assim como os protagonistas de Califórnia.

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.