[Review] O Homem Nas Trevas

Thriller reconhece os elementos do gênero e os otimiza ao seu favor

Costumeiramente, thrillers modernos tem por excelência a garantia de um entretenimento descompromissado para seu público, oferecendo tramas de “gato-e-rato” envolvendo elementos policiais. Ainda que tenha se estabelecido nas décadas de 70 e 80 como um dos que mais ofereciam filmes subversivos e autorais, a veia por esse tipo de entretenimento era algo natural perante o gênero. Tendo se tornado um grandes nomes do novo cinema americano, Fede Alvarez, por sua vez, conhece o campo no qual está trabalhando. Ao brincar com a questão da expectativa criada em torno do gênero e suas previsibilidades, ele demonstrou em A Morte do Demônio que estar ciente disso é sua maior arma para também brincar com seu público. Partindo do gore para um thriller de perseguição, o uruguaio demonstra mais uma vez saber lidar e conduzir seus elementos em O Homem Nas Trevas.

No filme, somos apresentados à Rocky (Jane Levy), Alex (Dylan Minnette) e Money (Daniel Zovatto), três adolescentes que sobrevivem de pequenos roubos domiciliares, sempre auxiliados pelo conhecimento de Alex sobre sistemas de segurança e dos riscos de cada novo furto. Quando decidem assaltar a casa de um homem cego (Stephen Lang) em busca de uma recompensa milionária, as coisas começam a dar errado ao descobrirem que o homem não é tão inofensivo quanto imaginavam. Apadrinhado por Sam Raimi, Alvarez pôde aplicar novos conceitos em seu cinema de suspense ao criar uma trama pautada pela subversão da dinâmica “mocinho” e “vilão”. Ainda que leve seu público até uma óbvia empatia pelo trio protagonista, O Homem Nas Trevas não se preocupa em definir linhas morais em suas ações, fazendo com se questione o tempo todo sobre quem deveríamos estar torcendo.

A figura de Lang, ao se tornar o elemento imprevisível da equação perfeita do trio, se revela gradativamente como a figura temerária da vez. O roteiro de Alvarez e Rodo Sayagues, ao se manter atento às costumeiras reviravoltas do gênero, flerta com o grau necessário de estranhamento, adicionando um tom de horror bem-vindo e toma o cuidado de não ultrapassar a linha com o ridículo. Ao iniciar a caçada dentro do filme, já é sabido como a estrutura da casa poderá ser aproveitada, mas aquilo que já se havia desconsiderado como uma potencial ameaça retorna de repente, causando bons sustos e retrabalhando o suspense, sempre construído de maneira honesta e sem rodeios.

Contudo, ao mesmo tempo que revela e constrói seu longa de forma competente, O Homem Nas Trevas acaba sofrendo com sua previsibilidade. Da maneira como os personagens possuem conhecimentos convenientes para as situações apresentadas até como a luta final se desenrola, os elementos do gênero jogam contra Alvarez dessa vez. É possível premeditar os momentos-chave e os acontecimentos que serão evidenciados a seguir, por melhor que estes tenham sido realizados.

Em um ano recheado de boas novidades dentro do horror e do suspense, O Homem Nas Trevas peca em trazer algo de novo para sua própria narrativa, mas consegue manter o bom nível das obras lançadas e confirma que Alvarez é um nome a ser observado em seus próximos filmes. Se 2016 representa um pontapé inicial em uma espécie de retomada de bons suspenses, os indícios tem sido promissores até o momento.

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.