[Robotflix] Obra

Gregório Graziosi aborda a loucura proveniente da melancolia e tradicionalismo familiar de São Paulo

Continuando nossa série do Robotflix com todos os filmes brasileiros presentes para votação no Prêmio Netflix, chegou a hora de falarmos de Obra, o longa de estreia de Gregório Graziosi.

São Paulo é uma cidade que possui diversas facetas. Assim como toda grande metrópole, suas regiões se categorizam por realidades sociais e econômicas tão diferentes, mas ao mesmo tempo similares, que esse ecossistema se estabelece como um “cardápio” de histórias, carregadas normalmente por seu sentimentalismo. Paulistano de nascença e criação, Graziozi soube identificar isso ao retratar a São Paulo romantizada pela literatura e pelo cinema, com a arquitetura antiga que predomina em seu antigo centro.

Somos apresentados a um arquiteto (Irandhir Santos) que vem ganhando destaque em seu mercado, prestes a ter seu primeiro filho e inserido em um casamento conturbado. O novo empreendimento de sua família, o qual gerencia, torna-se um problema ao descobrir que ali existe um cemitério clandestino. Recebendo conselhos e inclinações de seu pai, ele agora precisa lidar com o legado de sua família enquanto começa a perceber que sua saúde começa a trazer semelhanças com a dos outros membros de sua família.

É evidente que pouquíssimos filmes souberam representar tão bem a melancolia e indiferença que São Paulo consegue emanar como Obra. Essa atmosfera criada pela arquitetura da cidade, aliada a sua fotografia preto-e-branca, é a arma que Graziozi utiliza para retratar não apenas a cidade, mas características seculares que predominam em sua construção. Sempre privilegiando imagens estáticas para criar um sentimento de inquietação, Obra demonstra a prisão que o mar de possibilidades que a cidade representa pode se tornar. Irandhir Santos cria seu personagem de forma sutil, com leves toques de mudança para elucidar ao público o peso que suas escolhas e responsabilidades carregam. Não se trata apenas de uma constatação da claustrofobia arquitetônica que a cidade carrega, mas também sobre como novas gerações se vêem presas a normas estabelecidas por elementos sociais que já não se fazem mais presentes e necessitam serem deixados de lado.

Obra se torna um questionamento constante sobre o que é liberdade e de como nossa sociedade lida com isso. Em tempos que as discussões modernas redefinem o papel de minorias e de conceitos arcaicos, Obra é essencial para elucidar como a dor pode ser causada de maneiras singelas e inesperadas.

Continuem ligados pois o Robotflix volta na semana que vem com mais uma indicação dos filmes do Prêmio Netflix!

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.