Ghost in the Shell: Saudando o futuro

“É certo que unir ficção científica e filosofia, de maneira que faça sentido, é tarefa para poucos. Obras como Matrix e Blade Runner são raras e costumam aparecer em logos hiatos, enquanto outras despontam em formatos dos quais poucos estão habituados, tais como mangás e animes. Caso esse de Ghost in the Shell, um mangá originalmente concebido em 1989, ganhando uma adaptação homônima para as telas em forma de animação e que está facilmente configurada entre as melhores do gênero. Confira um pouco mais sobre o tema nessa publicação.”

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Ghost in the Shell surge como mangá em 1989, criado pelo japonês Shirow Masamune. A trama acompanha Motoko Kusanagi, a major responsável pelas operações da Seção 9, força tarefa designada para combater crimes no ciberespaço que, no ano de 2029, é tão evoluído a ponto de conceber total sintonia entre homem e máquina, o que prevê uma série de melhoras corporais, habilidades inimagináveis, longevidade existencial, etc. Dentro desse futuro, fortemente mediado por influências distópicas e cyberpunks, tal ligação transcende o conceito de meras próteses robóticas, e se dá ao nível neural, onde através de um chip todo o processamento cerebral é reconfigurado, permitindo uma melhora significativa da humanidade. Porém isso gera uma nova possibilidade de crimes, onde agora os humanos podem ser hackeados e manipulados, um dos temas centrais da trama que surgira a mais de duas décadas. Para tal questão, vemos a Comissão Nacional de Segurança Pública em ação, em prol de combater tais crimes, porém são muitas as tramas e conspirações provindas do próprio governo, que utiliza dessa tecnologia para praticar a máxima da corrupção.

Dificilmente o acesso do mangá é viável para o leitor, por isso usarei do filme, o principal lançado em 1995 e que adapta com total fidelidade o universo proposto. O filme comandado por Mamoru Oshii é fortemente inspirado por Neuromancer, romance cyberpunk escrito por William Gibson em 1984, e traz requintes dos longas investigativos e policiais, associados à um universo tecnológico em uma grande metrópole japonesa. No longa temos um hacker denominado “Mestre dos Fantoches,” esse tem manipulado pessoas inocentes através de hacks cerebrais, para que contribuam com sua causa, Kusanagi e sua equipe tentam capturar o criminoso, porém acabam envolvidos em uma enorme conspiração internacional, acerca de questões diplomáticas e políticas torpes. Tais reflexões de cunho político perpassam toda obra, assim como seu compêndio filosófico, quase sempre presentes em cena, no que diz respeito aos diálogos ou situações visuais. Logo no início, somos contemplados com a belíssima cena da Major Motoko executando um salto de um edifício totalmente nua, sem nenhum apelo sexual, a cena configura bem o simbolismo inicial dentro da cânone filosófica proposta pela obra, podendo ser definida por uma simples, mas complexa questão quando refletida: “O que nos define humanos em essência?” Logo o vislumbre daquele corpo desnudo, mas mecânico, não evoca outra sensação, além de confusão. Sabemos que uma das mais óbvias confirmações de nossa humanidade é a alma, que traduz aquilo que somos e nos situa dentro da existência, porém ao olharmos para os personagens do longa, em sua complexidade e alterações cibernéticas, temos a sensação da perda de tal humanidade. Sensação essa que é pauta da reflexão trazida por esses mesmos personagens. No longa, diferenciam aqueles que são totalmente mecânicos dos humanos, simplesmente pela existência do “fantasma,” aquilo que entendemos como alma. Vemos Kusanagi questionando sua existência como humana por diversas vezes, e também o fazemos, ao tempo que somos lançados para o pensamento de que “Basta apenas uma alma/fantasma/espírito para consagrar nossa definição de humano?” Sim, é um dos debates tratados por Blade Runner, que sabemos ser uma fonte da qual o longa bebeu. E Matrix também o faz, ao tempo que utiliza vários dos conceitos contidos em Ghost in the Shell.

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Claro que fui breve na proposta filosófica apresentada e o fiz somente para elucidar aquilo que o espectador pode encontrar nessa tremenda obra. Vale dizer que a fita é visualmente muito bonita, e a qualidade da animação, junto com suas cores, são contribuintes fortes para uma narrativa tão acertada. O título chegou no Brasil como “O Fantasma do Futuro,” sendo que suas continuações e o mangá, nunca foram lançados por aqui. E ainda reafirmo que o longa trabalha com a introspecção com o espectador, exigindo por vezes uma reflexão acerca dos mínimos detalhes, sejam esses visuais ou contidos nos diálogos quase que de maneira subliminar. Portanto é um filme contemplativo, devendo ser visto e revisto em prol do maior entendimento, que parece nunca estar completo por tamanha complexidade. Ghost in the Shell ganhará ainda uma versão live-action prevista para 2017, com Scarlett Johansson no papel da Major Kusanagi e direção por Rupert Sanders.

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Confira o Trailer do novo longa utilizando as cenas dos 5 teasers liberados.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Renan Gonçalves

Geek assumido. Historiador, assíduo leitor, consumidor de cultura pop (o pop não poupa ninguém). Apaixonado por dinossauros e filmes desde que vi Jurassic Park no cinema! O filme que me desvirginou em 93. Fã de carteirinha de James Bond, desde que vi ele saindo com várias mulheres em todos os filmes, mas ele não me desvirginou (Eu acho). Apelido NAN ou Gaúcho, pois uso nó maragato e até de ginete algumas vezes!