[Review] Aquarius

A persistência da memória

Enquanto cineasta, Kleber Mendonça Filho sempre demonstrou forte apreço em retratar a banalidade do cotidiano e como o mesmo poderia se tornar tão vil entre seus cidadãos. Sendo um usuário constante das redes sociais, KMF sabe como essa banalidade é maléfica em sua capacidade e a utiliza para criar uma forma de suspense diferente daquela retratada no cinema. Em seu primeiro filme, O Som Ao Redor, o diretor pôde executar com maestria essa dinâmica ao explorar as relações em um bairro de classe média de Recife. Tendo novamente a capital pernambucana como cenário, KMF resolve diluir seu domínio do suspense de tensão em meio à uma trama que aborda não apenas os conflitos sociais surgidos em um país tão diverso como é o Brasil, mas que evoca um respeito à memória em todos os seus sentidos. Este é Aquarius.

Clara (Sônia Braga) é uma jornalista e escritora aposentada que reside no edifício Aquarius, em frente à praia de Boa Viagem. Viúva e sobrevivente de um câncer, Clara aproveita sua vida de forma calma, entre banhos de mar e músicas em LP’s. Até que o jovem Diego (Humberto Carrão) e a construtora de sua família resolvem comprar o edifício e reconstruí-lo, tendo Clara como único empecilho para tal. As diferenças entre Clara e Diego não são abordadas entre suas idades divergentes de forma ocasional. Por mais que Aquarius ainda traga os traços característicos de KMF com seu suspense de tensão crescente, o mesmo se torna um catalisador para que se torne ainda mais evidente a relação com a memória que o diretor pretende construir.

Espera-se que Aquarius se torne um filme que aborde a relação problemática entre os desejos de dois personagens de eras e mentalidades contrastantes, em um jogo de perseguição, mas é na forma como essa dinâmica reflete no crescimento de Clara que o filme esconde sua verdadeira busca. Ao entregar o papel principal para Sônia Braga, KMF sabe valorizar a presença da atriz e exalta sua presença de forma quase santificada, deixando que a tela seja dominada pelas diferentes nuances de Braga, que mudam de acordo com o fortalecimento de sua personagem. Através disso, Aquarius se torna uma espécie de “reafirmação” de Braga e o paralelismo com a jornada de sua personagem dá ao filme uma nova dimensão.

Contudo, ainda que carregado na força de sua protagonista, Aquarius procura retratar de maneira sutil o estabelecimento da importância da memória sem se deixar cair no saudosismo. Os elementos dispostos no apartamento de Clara estabelecem que a personagem que reforça suas raízes culturais sempre que possível, mas não deixa de se adequar aos tempos atuais, rechaçando qualquer entendimento de uma “pregação” contra a modernidade. Em realidade, o que KMF busca demonstrar no longa é como a memória é constantemente deixada de lado nas relações comerciais e sociais em cidades como Recife, utilizando a incessante ganância de Diego contra a teimosia de Clara como uma exemplificação da especulação imobiliária e seu poder de “persuasão”.

Contudo, atribuir a Aquarius apenas esse viés se torna uma diminuição da representatividade que o filme alcança sobre cenários como as relações de classes e a política brasileira. Aquarius sempre procura inserir uma forma de “cutucão” a respeito de quais são as razões e motivações por trás de indivíduos como Diego e Clara. Ainda que soe de uma maneira maniqueísta e levemente deslocada em relação ao restante, é perceptível que KMF insere em Aquarius uma ironia sobre os favores, facilidades e jogadas que a classe média alta brasileira usufrui e quais as formas de retaliação que são capazes. O jogo de influência, a parcialidade da imprensa e a reputação é uma parte desse legado que o diretor busca satirizar.

Aquarius se torna uma exemplificação de como o cinema brasileiro contemporâneo tem conseguido estabelecer obras que tragam reflexões e causem desconforto sobre temas que afetam rotineiramente sua população. Da mesma maneira que também torna o longa um produto de seu tempo, KMF é capaz de retratar a importância da memória em campos que o esquecimento beira quase que ao inevitável. Essa dedicatória é a maneira que o diretor encontra para destacar que a memória condiciona ao apoio em importantes alicerces culturais e afetivos, mas para que também não se esqueça que a memória é um imenso refúgio de resistência contra as investidas de males modernos.

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.