[Robotflix] Expresso do Amanhã

Dentre os diversos grandes títulos perdidos no imenso catálogo da Netflix, este talvez seja um dos que possa ter atraído maior atenção graças ao seu elenco estrelado. É inegável, porém, que Expresso do Amanhã ainda não conseguiu obter o reconhecimento e visibilidade que merece desde sua estreia, em 2013. Acima de uma das melhores ficções científicas que surgiram nos últimos 10 anos, Expresso do Amanhã se tornou a comprovação da capacidade de um dos grandes diretores asiáticos de nosso tempo, em seu primeiro filme em língua inglesa: Bong Joon-ho.

O filme conta a história de Curtis (Chris Evans), o líder de um considerável grupo de pessoas que habitam a “cauda”, o último vagão do Snowpiercer. O trem foi construído sobre um sistema de navegação contínua pelo grande Wilford (Ed Harris), após uma tentativa falha de cientistas em reduzir as consequências do aquecimento global, criando uma nova era do gelo e tornando-o o único local onde a vida humana conseguiu se perpetuar. Mantendo uma inegável semelhança com a divisão social previamente estabelecida, o setor habitado por Curtis é onde todos os excluídos e menos afortunados são deslocados, com alimentação escassa e direitos básicos sendo violados diariamente. O caminho até o vagão inicial, onde Wilford reside, representa também que os habitantes presentes nos vagões afrente possuem mais dinheiro e, consequentemente, maiores privilégios. Curtis decide então realizar uma revolução para tomar o Snowpiercer e garantir que todos possam obter condições igualitárias de vida.

Adaptando a graphic novel francesa O Perfuraneve, Bong Joon-ho realiza uma interessante apropriação do material original ao inserir um pequeno contexto religioso, transformando sua versão do Snowpiercer em uma gigantesca Torre de Babel. Dadas as circunstâncias, o destino traçado para os membros de todo o trem, e não apenas o grupo de Curtis, também acaba refletindo os castigos que uma vida de futilidade e egoísmo poderiam acarretar. Este elemento em particular revela como Joon-ho utiliza-o de forma sutil para dar espaço à sua estética exagerada em relação aos ambientes que seus protagonistas estão inseridos. Ainda que as situações se demonstrem dramáticas em sua natureza, o diretor sabe utilizar a construção de retratos satíricos através da interpretação de seus atores para que esse humor, presente ao longo do filme através da personagem claramente inspirada em Margaret Thatcher de Tilda Swinton, ofereça ainda mais peso à sua dramaticidade.

A utilização de contrapontos como a satirização social óbvia de Expresso do Amanhã sob o plano de fundo de uma ficção científica pós-apocalíptica acabam criando uma obra com personalidade e que sabe abordar seus temas, como a luta de classes, sem cair em comodismos ou torná-los uma luta de “bem contra o mal”. Sendo responsável por obras com temáticas similares e tão memoráveis quanto, como O Hospedeiro, é de se esperar que Joon-ho pudesse criar um longa que balanceia sua trama com tópicos relevantes, mas não nos oferece todas as respostas para uma questão tão complexa.

Uma produção que definitivamente irá levantar sobrancelhas surpresas em relação à sua narrativa e também ao seu final, Expresso do Amanhã tem ganhado um interessante cult following nos últimos anos e tem sido considerado como um dos melhores filmes de 2013 por diversas revistas e site especializados. Presenciar o nascimento de uma obra como essas é uma oportunidade rara para os fãs de cinema e, graças ao Netflix, você também poderá descobrir Expresso do Amanhã em toda sua originalidade. Confira o filme e conte suas impressões nos comentários!

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.