[Review] Animais Fantásticos e Onde Habitam

Novo filme traz a inteligência e sensibilidade características de J.K. Rowling, mas sofre pela obrigação de estabelecer o futuro da franquia

Quando anunciado, era inevitável associar Animais Fantásticos e Onde Habitam como mais uma tentativa entre inúmeras que buscavam explorar ainda mais a mitologia de uma franquia já conhecida par arrecadar mais. O impacto cultural que a saga Harry Potter havia deixado na literatura e no cinema era inegável e se tornava cada vez mais inevitável que seu universo fosse revisitado, dada também a demanda existente de diversos fãs “órfãos” desde o fim da série, em 2011. Porém, o envolvimento de J.K. Rowling, assim como a opção de abordar uma parte totalmente inédita daquele universo, tornaram a produção fascinante o suficiente para também cativar o grande público e, assim, expandir a franquia para novos horizontes. A inteligência de Rowling em suas escolhas para ampliar a mitologia existente é exatamente onde Animais Fantásticos e Onde Habitam se provou como uma ótima surpresa.

A trama toma como base o livro de mesmo nome e revela os caminhos que Newt Scamander (Eddie Redmayne), um jovem bruxo que busca estudar e catalogar criaturas que vivem em meio ao mundo mágico, tomou para conseguir publicá-lo. Ao desembarcar em Nova York em 1926, Scamander encontra um país em reconstrução após a Primeira Guerra, onde o Ministério da Magia local luta constantemente para manter o mundo bruxo em segredo após uma onda de estranhos acontecimentos pela cidade. Para piorar a situação, as criaturas mantidas por Scamander em sua maleta escapam e começam a causar mais problemas. Então, Newt, juntamente com o trouxa Jacob Kowalski (Dan Fogler) e as bruxas Tina (Katherine Waterston) e Queenie Goldstein (Alison Sudol), precisa recuperar seus animais antes que seja tarde.

Uma das grandes qualidades que o roteiro de Rowling apresenta em Animais Fantásticos é justamente na construção dos personagens e do mundo que estão sendo apresentados diante de seu espectador. A escritora domina como poucos a capacidade de criar e associar situações fantásticas em contextos identificáveis, facilitando a relação do público com seu material, sem recorrer em nenhuma vez ao saudosismo e fan services baratos dos filmes da série original. Dessa vez, a contextualização histórica e local oferecem uma nova gama de situações que a autora mostra como saber utilizar e apresentar, tornando o longa em algo de fato original dentro do contexto conhecido de Harry Potter, como cultos fanáticos que caçam a comunidade bruxa, quais foram as consequências da grande guerra para o mundo bruxo, etc.

Mesmo que a estrutura de sua trama e os arquétipos de seus personagens sigam padrões tradicionais e já esperados, Rowling sabe como conferir personalidade e humor suficientes para que o longa não se torne previsível, adicionando novas camadas e temas que flertam com uma gravidade sombria, mas que não o tornam um filme propriamente “adulto”. O texto, alinhado novamente à direção de David Yates (responsável por todos os filmes da série desde Harry Potter e a Ordem da Fênix) e as ótimas caracterizações dadas pelo elenco, é capaz de trazer novamente a sensação cativante que muitos passaram a conhecer através da saga original.

Ainda assim, é inegável que Animais Fantásticos sofre justamente com um dos grandes males das franquias cinematográficas modernas: a necessidade de estabelecer seu futuro. Ao optar por estabelecer certas bases para os vindouros quatro filmes da nova série, a trama de Animais Fantásticos acaba não construindo o peso necessário para a própria sobrevivência de seus momentos-chave, como o clímax de seu terceiro ato. Isso se torna evidente através dos personagens de Dan Flogler e Ezra Miller, onde suas utilizações acabam pecando por motivos diferentes. Enquanto Fogler é construído como os olhos e ouvidos do público, sendo constantemente explicado sobre os animais de Scamander e detalhes do novo mundo bruxo, Miller é desenvolvido de forma mínima, onde quaisquer situações envolvendo seu destino pareçam desinteressantes assim que acabem de acontecer. Com isso, as consequências desses mesmos atos não são fortes o bastante para causar algum tipo de reação ao público.

Animais Fantásticos e Onde Habitam soube construir as fundações dos novos filmes da saga com qualidade o suficiente para ser uma bem-vinda experiência ao mundo de Harry Potter. Contudo, a opção por desenvolvê-lo como um “pontapé inicial” acabou por frear algumas das características que poderiam tornar o longa mais interessante por si mesmo. Livre das amarras da iniciação a partir de agora, resta esperar que Rowling, Yates e o restante da equipe se permitam focar em sua própria história.

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.