Westworld: Final de série e nosso veredito absoluto

Quando Westworld estreou em Outubro, muito fora o frisson acerca de um novo material que pudesse brilhar dentro do gênero ficção científica. Não que carecêssemos de produções do seguimento, mas ser concebido pela HBO  foi um diferencial, tal qual a plot, sempre enigmática ao divulgar o seriado antes de seu lançamento. Sabíamos que teríamos um velho oeste estilizado em meio ao cenário futurista e tecnológico exibido nos teasers e trailer. Quando a série fora finalmente concebida, descobrimos do que realmente se tratava. Sugiro que evite essa crítica antes de ter visto o primeiro episódio, pois darei detalhes da trama que estragariam essa surpresa, mas que já são revelados logo no primeiro capítulo, no mais, não teremos spoilers ou grandes revelações que poderiam comprometer a experiência.

O oeste visto na série se trata de um imenso parque temático composto, em suma, por robôs. Esses são conhecidos como anfitriões, sendo extremamente realistas em sua operação e aparência física. Tais robôs devem receber milionários que adentram o parque procurando por uma experiência única, para isso desempenham uma narrativa que geralmente é reiniciada diariamente em um eterno loop, o parque reproduz toda a violência e clima torpe que reinavam no velho oeste no século XIX, isso significa que os androides são constantemente assassinados, estuprados, torturados e submetidos a todo tipo de barbárie por parte dos humanos que frequentam o local, esses não podem ser mortos ou ainda gravemente feridos pelas máquinas. Logo no início da trama percebemos a grande empresa que está por trás do parque, um complexo subterrâneo futurista que comporta um imenso número de andares, sendo ele o segundo palco principal dos eventos, depois do próprio oeste. O grupo tem à frente Robert Ford (Anthony Hopkins), um personagem enigmático que descobrimos ser um dos idealizadores do projeto, junto com Arnold, seu parceiro que fora morto sob misteriosas condições. No desenrolar do enredo, durantes os 10 episódios que compõe a primeira temporada, conhecemos mais sobre Ford e Arnold, assim como a relação dos criadores com sua criação, é dentro da história de ambos que também nos inteiramos do motivo dos supostos problemas gradativos ocorrendo nos anfitriões, problemas que sugerem auto-consciência. Partindo dessa premissa, a série cria seu palco para tratar de temas como filosofia e o futuro da tecnologia.

Dentro da filosofia, temos indagações acerca sobre o que é real e sobre o que é preciso para desempenhar o papel de “real” no âmbito da existência. Algo que já vimos antes, não da mesma maneira, mas similarmente em Matrix e Blade Runner, como já pontuei no review do piloto e primeiras impressões que você encontra aqui. Essa ideia é desenvolvida no desenrolar da trama, de maneira esperada e positiva; ao final temos até o “Teste de Turing” citado, que basicamente testa a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente equivalente a de um ser humano, ou indistinguível deste. A estrada para auto-consciência é construída desde o piloto, sendo o ponto chave da trama e dos principais diálogos que envolvem Ford, esse funciona como o criador que tem em sua criação o trabalho mais importante, até mesmo do que sua própria vida. Suas motivações são percebidas no princípio e totalmente descortinadas ao final, e ainda sobre o final, é interessante pontuar que foi devidamente o encerramento de um ciclo, a próxima temporada já foi confirmada para o longínquo ano de 2018, mas saímos com a percepção de encerramento, de uma fase, ao menos. O seriado também utiliza da metalinguagem para tratar a relação humano/máquina e o personagem interpretado por Ed Harris é encarregado desse vínculo, a longa construção do personagem sugere auto-descoberta, sendo que algo similar ocorre com alguns anfitriões. A série ainda utiliza de importantes narrativas dispostas em tempos distintos, artificio que difere de um flashback comum, por esse ser imperceptível. Não trarei mais detalhes dessa questão para não comprometer a história, mas é importante pontuar que é uma brilhante jogada narrativa.

Por fim concluo que a série seja a maior estreia dos últimos anos para o gênero, que carece de um conteúdo de qualidade desde o início de Lost, talvez. Feito alcançado pelo ineditismo e pela qualidade técnica que a HBO consegue promover em suas produções. Junte tudo isso à direção acertada de Jonathan Nolan e temos uma obra distinta de grande qualidade, debates filosóficos sempre interessantes a serem revisitados, personagens construídos com cuidado literal e uma trama ímpar. Todos os elementos são acertados e bem distribuídos ao longo dos dez episódios que não perdem, em momento algum, a qualidade indiscutível, situando a série em uma das melhores já concebidas.

Renan Gonçalves

Geek assumido. Historiador, assíduo leitor, consumidor de cultura pop (o pop não poupa ninguém). Apaixonado por dinossauros e filmes desde que vi Jurassic Park no cinema! O filme que me desvirginou em 93. Fã de carteirinha de James Bond, desde que vi ele saindo com várias mulheres em todos os filmes, mas ele não me desvirginou (Eu acho). Apelido NAN ou Gaúcho, pois uso nó maragato e até de ginete algumas vezes!