A Chegada: Crítica da estreia Sci-Fi mais comentada dos últimos tempos

“É certo que Denis Villeneuve já tem seu nome em evidência na indústria cinematográfica, seus títulos se demonstram impactantes e autorais desde 2000 com “Redemoinho” e sua carreira se estende até então com sucessos de crítica e público como no caso de “Sicario: Terra de Ninguém” e os “Suspeitos.” Naturalmente um diretor busca constantemente por novos horizontes onde possa desenvolver sua cinematografia, e no caso do cineasta canadense, o horizonte escolhido fora o da ficção científica. A Chegada já promove certo frisson por parte daqueles que já acompanharam e entenderam a trama, hoje trazemos o veredito definitivo da famigerada fita.”

Situada dentro do gênero conhecido como Hard Sci-Fi, A Chegada é inspirada por um conto do autor Ted Chiang, publicado no livro História da Sua Vida e Outros Contos.” A trama, que pode soar clichê ao primeiro contato, narra uma invasão alienígena onde 12 espaço-naves pousam em diferentes lugares do globo, promovendo uma comoção geral por parte da população e governo, que devem lidar com os visitantes. Na ocorrência americana do evento, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma especialista em linguagem, é recrutada pelos militares em prol de estabelecer um possível contato com os supostos aliens. Partindo dessa premissa, é fácil termos uma sensação de uma plot digna de Michael Bay, porém devemos lembrar que estamos falando de um longa dirigido por Denis Villeneuve, diretor conceituado por suas tramas autorais que transbordam drama e complexidade, algo que encontramos do início ao fim com A Chegada. Algo que ainda insere a fita dentro da cânone estabelecida por longas como Interstellar e Gravidade.

De início já entramos em contato com a bela fotografia promovida por Bradford Young, onde ângulos e enquadramentos alternados logo remetem aos longas de Terrence Malick, essa inspiração fica clara no clima proposto que sugere, dentro da narrativa, uma dinâmica imbuída na questão sensorial. Logo temos uma história contada por sequências oníricas, composta por uma trilha sonora pontual, poucos e fortes diálogos, além da própria fotografia contemplativa, que se mune de uma iluminação pautada em devaneios, principalmente nas cenas que compõem a memória de Louise, personagem que recebe, em suma, todo destaque pelo belo trabalho de atuação de Amy Adams. Todo esse cuidado visa promover uma experiência autoral que também dita o ritmo do filme e para os não acostumados com a linguagem cinematográfica proposta, pode parecer maçante ou lento. Embora aqueles que já se aventurem dentro do gênero, que de certo modo compreende 2001: Uma Odisseia no Espaço ou ainda Solaris, podem ter um prato cheio com a experiência proposta, ao tempo que alguns ainda dirão que deveriam se aprofundar ainda mais dentro das inúmeras temáticas das quais o longa aborda, necessitando de mais horas de duração e menos diálogos explicativos, tão somente para que nossa subjetividade conceba o sentido da trama. Então temos um longa que certamente dividirá opiniões; embora seja perceptível o cuidado do diretor com o equilíbrio em prol de atingir um público maior, o filme sempre pende mais para o lado autoral e dramático. Dentro das temáticas, a filosofia é sempre pontual, questões como presentismo, livre-arbítrio e determinismo são tratadas aqui, de modo que poderiam ser ainda mais desenvolvidas, mas não sem render uma trama ainda mais densa, limitando o público que consumiria a experiência. É importante lembrar que o longa foi vendido com uma roupagem de blockbuster, logo alguns pontos da receita sempre devem ser mantidos, como o caráter mais informal da experiência, algo do qual o filme consegue conceber ao tempo que foge ao dito “informal óbvio.” Ainda na filosofia proposta, a questão da linguística certamente é a mais desenvolvida, com grande inspiração na “Hipótese Sapir-Whorf.” Proposta essa desenvolvida por Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, ambos postularam tal tese, conhecida também por “Relativismo Linguístico“, a teoria alega que a linguagem antecede o pensamento, sendo essa necessária para que concebamos nossa visão básica acerca do mundo que nos cerca. Logo a linguagem está diretamente ligada à nossa cognição e subjetividade, de modo que toda nossa percepção, mesmo a mais básica, seja previamente norteada por nosso idioma. Sendo assim em outras culturas e em outros tempos, certamente teríamos uma visão diferente sobre determinados aspectos que hoje trazemos conosco. Não me aprofundarei mais ou direi onde a hipótese se enquadra para que a trama não seja comprometida. É certo que essa implicação acerca da linguagem seja o aspecto principal que serve de trilho para o desenvolvimento do enredo, gerando mais discussões pontuais que a trama aborda de maneira breve, sempre deixando algo para que possamos digerir por conta própria, o que tem feito muitos torcerem o nariz por esperarem o prato pronto.

Concluo dizendo que o filme é, sem dúvida, a maior estreia dentro do gênero desde Interstellar, apesar das duas produções serem incomparáveis pela incompatibilidade dos temas abordados, ambos são próximos de alguma maneira, por evocarem um sentimento parecido acerca dos mistérios do universo que em muito transcendem nossa vã filosofia. Uma direção autoral, acompanhada por uma incrível produção cuidadosa imprimem um conteúdo inédito e original, mesmo que o longa tenha bebido de algumas fontes como 2001, Contato e o próprio Interstellar. Em meio á tantas estreias de super-heróis e filmes de ação que compõem grande parte dos blockbusters, A Chegada é uma saída mais que positiva para quem busca navegar por mares mais complexos, é ainda para aqueles que admiram a ficção científica pura, e que ousam fugir ao óbvio em seu pensamento.

Renan Gonçalves

Geek assumido. Historiador, assíduo leitor, consumidor de cultura pop (o pop não poupa ninguém). Apaixonado por dinossauros e filmes desde que vi Jurassic Park no cinema! O filme que me desvirginou em 93. Fã de carteirinha de James Bond, desde que vi ele saindo com várias mulheres em todos os filmes, mas ele não me desvirginou (Eu acho). Apelido NAN ou Gaúcho, pois uso nó maragato e até de ginete algumas vezes!