[Robotflix] A Mosca (1986)

O final de semana finalmente chegou e você provavelmente deve estar pensando em duas coisas: que você irá aproveitar um Netflix aconchegante no conforto da sua cama e o que assistir em meio ao imenso catálogo deste serviço que tanto alegra nossas vidas. Pois bem, o Robotflix está aqui para lhe ajudar! Uma das melhores coisas proporcionadas pelo Netflix aos cinéfilos é a oportunidade de conhecer novas obras, de gêneros e épocas diferentes, que ajudaram a moldar o cinema como o conhecemos hoje. Porém, não são apenas os grandes clássicos, como Star Wars, Tubarão e Taxi Driver, que contribuíram para isso. Filmes menores, de gêneros também menores, revelaram grandes diretores e influenciaram uma geração de apaixonados pela sétima arte para que eles também pudessem, um dia, contar suas próprias histórias. E para começar a nova temporada do Robotflix com uma excelente dica, nada mais apropriado do que falarmos de A Mosca, de David Cronenberg.

Lançado em 1986, A Mosca conta a história de Seth Brundle (Jeff Goldblum), um cientista cuja carreira se baseia em realizar o primeiro teletransporte de matéria orgânica de todos os tempos. Para isso, Brundle cria um sistema de pods, pequenas máquinas ligadas entre si que transportam a matéria de um local para outro. Sem sucesso em suas tentativas recentes, Brundle aperfeiçoa sua máquina ao limite e realiza o teste definitivo utilizando a si mesmo como cobaia. Contudo, dentro de seu pod, uma pequena mosca também havia se infiltrado e acaba tendo seu material genético unido ao de Brundle, que finalmente chega ao pod final. Dessa maneira, os traços do inseto começam a tomar conta do corpo e da mente do cientista, à medida que ele busca manter sua humanidade intacta através do amor por sua noiva Veronica (Geena Davis).

 

Um dos fatores mais importantes para se compreender a importância e o impacto de A Mosca é junção praticamente perfeita de diferentes camadas que o diretor e co-roteirista David Cronenberg conseguiu inserir em sua versão da história, já adaptada anteriormente aos cinemas como o filme A Mosca da Cabeça Branca, de 1958. Auxiliado pela maquiagem primorosa de Chris Walas, Cronenberg realizou o passo definitivo para encaixar seu nome entre os principais diretores de gênero de seu tempo, ao construir uma narrativa de suspense nas pequenas maneiras de revelar a progressão da transformação corporal de Brundle. Em cada nova cena onde Brundle percebe que seu corpo não é mais o mesmo, a paixão que Cronenberg revela pelo gênero se torna cada vez mais evidente e é exponenciada pela atuação de Goldblum, exagerada nos maneirismos do ator, que se encaixam perfeitamente com a proposta de seu personagem.

Acima de se tratar de uma obra de horror, que se torna o primeiro pensamento associado ao filme devido à transformação gradual de Seth em uma mosca humanoide, o filme de Cronenberg trabalha o tempo necessário para compreendermos quais são as motivações e falhas por trás de seu protagonista, que acabam por se tornar sua derrocada, tal qual o princípio básico que move a ficção científica (o mito de Prometeus). A tragédia anunciada que cresce à nossa vista oferece um novo peso à história, tratando de temas como humanidade, amor, perda e ganância.

Com a união perfeita entre um roteiro bem construído, uma direção segura e apaixonada com uma maquiagem que impressiona até os dias atuais, A Mosca é uma dos pilares fundamentais para que possamos compreender a obra de David Cronenberg, além de se manter como um entretenimento extremamente eficaz. Seu impacto é extremamente relevante até os dias atuais, onde diretores da atual geração, como Neill Blomkamp e Josh Trank, citam o filme como a referência máxima para que pudessem produzir seus próprios filmes dentro do gênero da ficção científica.

Reserve uma parte de seu sofá, prepare seu estômago e confira A Mosca em seu Netflix durante esse final de semana!

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.