[RobotReview] Logan

Último filme de Hugh Jackman finalmente compreende as raízes de seu protagonista, mas ainda enfrenta velhos problemas em seu desenvolvimento

Quando Hugh Jackman foi anunciado para viver Wolverine em X-Men: O Filme (2000), o alarde por parte dos fãs foi geral, como era de esperar. Afinal, como um ator desconhecido, australiano, vindo de musicais e com 1,90 de altura poderia fazer jus ao baixinho canadense invocado que é considerado como o grande favorito entre os personagens mutantes? A resposta é que, hoje, é praticamente impossível dissociar a imagem do ator ao personagem. Uma simples busca no Google Imagens por “wolverine” é o bastante para confirmar o sucesso de Jackman ao longo dos últimos 17 anos e 9 filmes em que deu vida ao carcaju. Entretanto, Jackman também enfrentou críticas por parte dos fãs em relação ao tom e à leveza com que o personagem, conhecido por sua veia sanguinolenta, era apresentado nos cinemas. Então, como dar um fim a um legado tão primordial ao cinema de super-heróis e conciliar tantas demandas? Logan foi a resposta que o ator e o diretor/roteirista James Mangold encontraram.

Focado em contar uma história isolada de amarras com filmes anteriores da franquia, Logan estabelece sua trama no futuro, em 2029. O mundo é árido e o senso de desesperança é constante. Já não são registrados nascimentos de novos mutantes há mais de 20 anos. Os X-Men se foram e não passam de lendas contadas para crianças em histórias em quadrinhos. Wolverine não é mais o mesmo, sentindo o peso de sua idade avançada e todos os traumas que carrega consigo. Seu fator de cura é falho e o adamantium de seu esqueleto está causando danos ao seu corpo. Além disso, Logan ainda precisa cuidar de um Professor Xavier (Patrick Stewart) que possui uma doença degenerativa em seu cérebro e que pode matar todos ao seu redor a cada nova crise que sofre. Quando a jovem Laura (Dafne Keen) cruza o caminho de Logan e traz novos perigos, ele precisará enfrentar tudo aquilo que sempre evitou para fazer a coisa certa pela última vez.

Sendo o último filme de Jackman no papel e graças ao sucesso de Deadpool, é perceptível que Logan se aproveitou da deixa para conter um teor mais adulto e estabelecer uma censura mais elevada. A decisão foi extremamente acertada, permitindo que Mangold pudesse finalmente explorar elementos do universo de Wolverine ainda intocados no cinema. Mas engana-se quem pensa que isso se resuma apenas às mortes violentas (valorizadas em cada take) pelas garras de Wolverine. O grande foco do longa está justamente nos medos e traumas que o protagonista esconde constantemente. Esse senso de tragédia constante sempre se permeou as bases da construção do personagem ao longo de mais de 30 anos nos quadrinhos e lhe conferiram uma humanidade fascinante. Ao transpôr essa construção para a tela, Mangold cria uma belíssima homenagem ao personagem.

Oriundo de uma geração cinematográfica influenciada fortemente pelo western e pelo cinema de gênero, Mangold soube como conferir uma identidade única ao filme, unindo essa transposição trágica do personagem à um senso de gravidade que segue ausente em filmes de super-heróis mais recentes. Cada tiro, soco e golpe dado em Logan é sentido de maneira quase visceral, assim como cada trecho de diálogo do longa é pensado como uma carta de despedida, revelando como a vida de cada um de seus personagens os afetou. A humanidade presente no roteiro e nas atuações soberbas de Jackman e Stewart eleva o longa para um novo patamar, oferecendo cada vez mais dramaticidade para seu desfecho e criando momentos tocantes como forma de homenagear o personagem, como na cena onde Logan tem sua longa barba cortada por crianças, deixando apenas suas clássicas costeletas. O reconhecimento da importância que Jackman tem para o personagem em sua despedida nunca se torna maior do que o próprio personagem, servindo apenas para engrandecer ainda mais a figura de Wolverine.

Logo, acaba se tornando irônico notar que Logan acaba patinando justamente em elementos menores que circundam sua trama, assim como em Wolverine: Imortal, também comandado por Mangold. No fraco estabelecimento de seu principal vilão, o dr. Zander Rice (Richard E. Grant), o filme acaba criando camadas de informações que soam desconexas com sua proposta intimista, levando conceitos fantasiosos que são apresentados de forma rasa, com uma importância não se resume apenas aos fatos ocorridos dentro de Logan, mas em todo o Universo X-Men dos cinemas. Ao decidir estabelecer elementos que soam maiores do que sua própria história, Logan parece se perder momentaneamente em relação ao seu tom, dando a entender que isso tornaria o filme mais “super-heroico”.

Entretanto, a emoção e a humanidade dos personagens de Logan são capazes de se sobrepôr facilmente quando comparadas ao seu todo. Logan é um exemplo de como um filme soube compreender as razões pelas quais seu protagonista possui um lugar especial na cultura pop mundial e sabe dosar sua dramaticidade com o entretenimento. O futuro de Wolverine nos cinemas ainda é incerto, mas Jackman conseguiu a certeza que sua página foi fechada de maneira digna no coração dos fãs.

 

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.