[RobotReview] Silence

Inspirado pelo autor Shusaku Endo e seu romance Silêncio, Scorsese aqui talvez conceba sua obra mais intimista. A adaptação marca a volta do diretor aos roteiros, fomentando a ideia do forte cuidado pessoal para com o longa. Mas será que a fita tem potencial para ser considerado um dos seus melhores trabalhos? Descubra em nossa crítica. 

É certo que Scorsese foi consagrado por trabalhar violência em suas películas, seja em histórias da máfia, temas criminais ou suspenses, o diretor construiu uma longa carreira pautada no assunto e certamente alguns requintes consagrados de suas obras estão presentes em Silêncio, mas não se engane, esse também é seu filme mais atípico, onde uma verdadeira mudança de ares é proposta. É importante dizer ainda que o longa esteve em produção por aproximadamente duas décadas, sendo considerado pelo próprio diretor o trabalho de sua vida. Partindo dessa premissa, podemos ter a percepção completa acerca do cuidado dedicado ao título, temos em tela a máxima do bom cinema autoral que, por tamanha complexidade, impõe certa restrição ao conteúdo, que certamente não é para todos.

Na história dois padres jesuítas portugueses, interpretados por Andrew Garfield e Adam Driver, se voluntariam para encontrar um padre que supostamente teria renunciado à Cristo, e o fazem no Japão em pleno século XVII, onde cristãos foram severamente perseguidos. Em primeiro momento, já percebemos o potencial do conceito na criação de um drama pautado nas questões que envolvem a fé, essas sempre polêmicas. Logo sua adoção em uma abordagem cinematográfica, já configura um desafio em potencial; felizmente Scorsese é brilhante, de maneira que consegue utilizar suas próprias experiências com a religião para empregar ao longa o tom ideal, criando uma perfeita analogia entre passado e presente. A fita é concebida com requintes de delicadeza que são, no mínimo, tocantes; presentes até mesmo nas cenas onde os japoneses conduzem terríveis torturas ao cristãos que não estão dispostos a renunciar sua fé, o que geralmente culmina em morte certa. Essa trama sútil permite que Andrew Garfield possa demonstrar seu talento, como o fez em “Até o Último Homem“, no papel de um jovem padre que tem sua fé testada até o limite e que sozinho em um país estrangeiro busca, desesperadamente, por uma resposta de seu criador, mas só se depara com o silêncio. Silêncio esse que ganha uma abordagem onírica nas mãos do diretor que usa e abusa do conceito em uma narrativa lenta, porém sustentável, ao longo das suas quase 3 horas de duração, pela forte dramaticidade dos diálogos e ainda das próprias sequências “calmas” que esbanjam arte quanto à fotografia empregada. Apesar da polêmica acerca da temática, é importante apontar que a imparcialidade reina aqui, somos apresentados aos dois lados da moeda de forma respeitosa e muitas vezes crua. O contexto é historicamente riquíssimo e Scorsese utiliza de todo esse potencial em sua apresentação. Adam Driver também aparece muito bem aqui, a mão de um diretor experiente permitiu que o jovem explorasse toda sua capacidade em um trabalho de cunho verdadeiramente dramático, o mesmo vale para o experiente Liam Neesom, que apesar da curta aparição, prova que essa parceria antiga é mais que positiva.

Com uma narrativa que não se preocupa em ser apressada e ainda trazendo uma duração acima do comum, fica claro que Silêncio é uma fita para um público específico, o que muitos tomariam como um aspecto negativo. Já os cinéfilos de plantão tem motivos para sorrir ao se deleitar de uma grande produção do cinema autoral moderno. É certo que um produto especificamente bom custa a surgir. Mais uma vez o diretor se arrisca em outros gêneros, ao tempo que utiliza de artifícios presentes em seus outros longas, responsáveis por consagrá-lo como um dos grandes nomes atuais da indústria cinematográfica. Sem perder a mão, Scorsese imprime um conteúdo poético e trabalha um tema pouco explorado nas mídias, esse ineditismo em junção da incrível qualidade técnica e também do roteiro acertado certamente configuram o longa como um dos melhores dos últimos anos.

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Renan Gonçalves

Geek assumido. Historiador, assíduo leitor, consumidor de cultura pop (o pop não poupa ninguém). Apaixonado por dinossauros e filmes desde que vi Jurassic Park no cinema! O filme que me desvirginou em 93. Fã de carteirinha de James Bond, desde que vi ele saindo com várias mulheres em todos os filmes, mas ele não me desvirginou (Eu acho). Apelido NAN ou Gaúcho, pois uso nó maragato e até de ginete algumas vezes!