[RobotReview] Power Rangers

Nova adaptação ironicamente inverte papéis e entrega filme com personagens fortes, mas sem a essência da diversão

Quando o reboot de Power Rangers foi anunciado pelas produtoras Saban Entertainment e Lionsgate, o clima de mistério a respeito de como seria o tom do novo filme se instalou rapidamente. Os Power Rangers haviam se tornado um sinônimo de efeitos especiais megalomaníacos, poses bregas, atuações duvidosas que garantiam uma aventura extremamente divertida e descompromissada que se tornou um sucesso avassalador durante a década de 1990. Como trazer de volta esse feeling para uma adaptação que prometia centrar os personagens em uma abordagem mais séria e realista era a grande pergunta por trás disso. O curioso é que Power Rangers acerta na construção de seus personagens, mas acaba por abafar justamente a sua veia pela diversão.

O longa se baseia na primeira temporada da série americana Mighty Morphin Power Rangers, trazendo de volta a história e dinâmica entre o primeiro grupo de jovens com garra que formaram a equipe: Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cyler), Zack (Ludi Lin), Trini (Becky G) e Kimberly (Naomi Scott). Ao se encontrarem em uma mina de ouro, os cinco jovens descobrem as moedas do poder e ganham poderes sobre-humanos. Agora, guiados por Zordon (Bryan Cranston), eles precisam assumir seu destino para impedir que Rita Repulsa (Elizabeth Banks) realize seu plano de encontrar o Cristal Zeo escondido no centro da Terra e conquiste o universo.

Ainda que reutilize os principais pontos da trama que movia a antiga série, Power Rangers se difere ao agora centrar seus protagonistas como adolescentes marginalizados, cada um por uma diferente e oculta razão. A decisão em criar as raízes de seus personagens, um a um, em situações traumáticas e complexas, assim como realizado anteriormente em franquias como Jogos Vorazes, ajuda a torná-los mais identificáveis e humanos, algo que faltava na proposta do seriado original. Auxiliado pelas grandes (e até mesmo surpreendentes) atuações de seu elenco (com destaque para o Ranger Azul, RJ Cyler), o diretor Dean Israelite é capaz de imprimir uma personalidade inédita para a franquia, trabalhando de forma interessante alguns novos conceitos, como a conexão que os cinco partilham e o fato de que eles precisam estar em harmonia para que possam morfar e vestir suas armaduras de luta. Israelite, vindo de produções como Projeto Almanaque, demonstra sua habilidade para tornar o filme em uma experiência diferenciada o suficiente de produções semelhantes, além de contar com uma atuação inspirada de Elizabeth Banks como Rita Repulsa, que aparenta estar se divertindo a cada minuto no papel e realizando uma grande homenagem ao tom do seriado original em seus exageros.

O que torna o longa de certa forma irônico é notar que sua principal falha acontece quando (finalmente) o grupo consegue sincronizar suas energias e morfa em sua forma Ranger. Com um desenvolvimento acelerado e não oferece tempo o suficiente para que algumas soluções sejam apresentadas com o impacto que necessitam, Power Rangers acaba pecando na entrega de seu principal chamariz. Com pouco tempo de tela (em torno de 30 a 35 minutos), o longa demonstra certo desleixo com seus elementos fantásticos, parecendo realizá-los no modo automático por simplesmente ter de inseri-los ali, sem o mesmo entusiasmo e criatividade pela diversão característica do seriado original. Ao construir seu terceiro ato, o filme parece não conversar com o tom de seus dois primeiros arcos, tornando-se uma espécie de colcha de retalhos entre dois filmes diferentes.

Ao final, Power Rangers surpreende por entregar uma obra que termina por se tornar o exato oposto do seu material de base. Apoiado em personagens sólidos, o longa não consegue executar o mesmo em seus momentos mais divertidos. Ainda que o retrospecto dos Power Rangers nas telonas esteja longe de ser positivo, o filme apresenta bons caminhos para a construção de uma nova franquia, mas ainda precisa abraçar a breguice e o charme que tanto ajudaram a tornar a série noventista em um ícone de sua geração.

 

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.