[RobotReview] Fragmentado

M. Night Shyamalan retoma sua antiga forma justamente quando decide subverter suas próprias amarras narrativas

Após o sucesso de O Sexto Sentido (1999), M. Night Shyamalan se viu preso em um complexo jogo de expectativas. Ainda que tratado como uma das grandes revelações entre os cineastas do começo do século 21, sua reputação se tornou marcada pela grande revelação ao final de seus filmes, indo de uma de suas mais marcantes características a ser um fardo narrativo exigido tanto pela crítica quanto pelo público. Com uma filmografia repleta de altos e baixos, indo desde seu sucesso inicial com Corpo Fechado (2000) e Sinais (2003) até os fiascos mais recentes de Fim dos Tempos (2008) e O Último Mestre do Ar (2010), Shyamalan buscou flertar com diversos gêneros diferentes ao longo dos anos, buscando renovar sua própria fórmula narrativa. Quando Fragmentado foi anunciado, muito se comentou a respeito do que se tratava o longa e, principalmente, se significava uma tentativa de retorno à sua antiga forma, agora buscando fazer filmes menores e com orçamentos mais modestos. Curiosamente, o novo filme do diretor é a prova central de como Shyamalan soube compreender as críticas recebidas ao longo dos anos e se lapidar.

A trama gira em torno do sequestro de três garotas feito por Kevin (James McAvoy), um homem que sofre com um distúrbio psiquiátrico de dissociação de sua personalidade, fazendo com que ele tenha 23 diferentes tipos de personas habitando seu corpo e tomando o controle a qualquer momento. As jovens serviriam como uma oferenda para a chegada da 24ª personalidade, conhecida como a Fera, que promete libertar as outras personalidades para que Kevin mostre seu verdadeiro poder ao mundo.

Assim como Kevin, Fragmentado transita entre suas diversas formas, assumindo novas características conforme o tempo de tela continua a rolar. De início, o filme assume sua forma como um thriller psicológico, testando quais seriam os limites do potencial homicida do antagonista e como ele poderia ser desmascarado. Depois, como uma resposta direta para esse cenário, chega a vez do filme de sobrevivência, onde as três garotas (com destaque para o papel de Anya Taylor-Joy) procuram uma maneira de escapar da situação tentando persuadir uma das muitas personalidades de Kevin ou procurando por dutos de ventilação. Cada nova camada assumida pelo longa garante mais complexidade para sua história e para onde ela está se desenrolando, fluindo sua narrativa de maneira orgânica e interessante. A opção por essa estruturação eleva a atuação de James McAvoy, que parece estar dedicado ao papel de sua carreira e demonstra toda sua capacidade em pequenas mudanças nas nuances de seus personagens quando uma nova personalidade assumia o controle do corpo de Kevin. O ator escocês prova sua versatilidade de maneira categórica e memorável, ajudando a tornar a percepção da gravidade das personas de Kevin ainda maior.

Contudo, não é apenas nisso em que Fragmentado mostra que Shyamalan soube compreender e entender o porquê ele havia se tornado um sinônimo de fracasso. Criando uma profundidade no desenvolvimento de seus principais personagens, Fragmentado não oferece respostas simples e/ou óbvias em relação ao que iremos presenciar sobre o arco de cada um. Cada arco é fechado de maneira instigante e que leva para um final que subverte completamente o viés imaginativo do filme, até então calcado em um mundo mais realista e que aparentava não se encaixar nas decisões de Shyamalan. Eis que, quando Fragmentado assume sua forma final, em um gênero completamente oposto, é sentido que o longa ganha uma sensação de engrandecimento perante a experiência do novo longa.

Fragmentado comprova justamente o controle que Shyamalan demonstrava possuir em relação ao público há mais de 20 anos. Porém, o diretor ainda não havia assumido esse mesmo controle em suas obras, não sabendo escapar da maldição do plot twist. Dessa vez, não apenas Shyamalan soube realizar o mesmo como também cria uma expectativa sobre qual será seu próximo passo enquanto cineasta.

 

 

Pedro Ornellas Ribeiro

Apenas um cara comum que é considerado estranho por ter lido 3 edições dos Dicionários dos Cineastas e se lembrar do ano de lançamento, nomes e obras de diversos diretores quando era menor. (Ok, isso é um pouco estranho mesmo) Publicitário, mas que sempre quis trabalhar com cinema. Acredita que as pessoas não são ruins, elas só estão perdidas. Talvez por isso ainda acredite em super heróis. Acredita que o mundo não é binário. Por isso, gosta tanto da DC quanto da Marvel, assim como Star Wars e Star Trek. Ama cinema blockbuster, mas não abre mão de poder assistir um filme alternativo sempre que puder. Não gosta de café. Futebol, política e religião se discutem sim, mas sempre numa boa. Ah, filme favorito? Tubarão (1975), do Spielberg.